Morrer é recomeçar, e isto está em todas as mitologias do mundo. A morte é apenas um novo caminho, um caminho misterioso do qual muitas pessoas tentam fugir tenazmente. Mas, segundo Joseph Campbell “Quando se afirma a vida, não há como negar a morte”, portanto, podemos até negá-la, mas jamais fugir dela. A mitologia nos mostra a importância deste ritual que não é apenas físico, mas espiritual, explico.
Vivemos em um mundo em que o duplo é predominante. Tudo neste plano objetivo é dual, se há vida há morte, se há amor há ódio, e assim nos acostumamos a esse mundo de yin e yang. Nós ocidentais, impregnados a uma mentalidade materialista, não concebemos uma vida em ciclos alternados, levamos a vida com pressa, sem observar o que há de melhor e mais belo. Temos levado a vida com ansiedade e medo, pois sabemos que tudo isto é um sonho, algo que passa e não é real. Infelizmente esquecemos a sabedoria dos índios navajos e o caminho do pólen, um caminho que procura enxergar a vida em todas as suas manifestações, todas suas cores e formas, no caminho do pólen não há morte.
Recordo da história de uma tribo antiga a qual esqueci o nome. Eles costumavam enterrar seus mortos em posição fetal, pois acreditavam que eles renasceriam para uma nova etapa, uma nova vida, um novo clico. A vida em sua totalidade é feita de ciclos, eu particularmente acho a imortalidade uma maldição, há de haver um tempo para descansar dessa loucura, quando velhos ficamos encurvados pelo peso das decepções de uma vida de felicidade, mas também de intenso sofrimento, necessitamos de descanso. A morte nesse ponto é misericordiosa. Embora acredite, sinceramente, que a morte é um fato, não acredito nela como fim.
Agora é certo que morremos várias vezes em vida, alguns morrem apenas uma vez, mas este é o caminho dos grandes heróis da humanidade. Infelizmente somos pequenos ainda, temos de morrer muitas vezes para enxergar a verdade, tanto literalmente como metaforicamente, temos de morrer para renascermos melhores. Várias são as histórias que contam a saga de um homem superior que enfrentou a morte, desceu aos infernos e voltou à vida. Pois esta é a saga humana, morrermos para nos tornamos imortais.
Apenas uma coisa é certa, nos norteamos pelo princípio inteligente que é a vida, falta apenas aprendermos a dançar a música, aliás, precisamos primeiro ouvi-la. Após reconhecermos a música do universo dançaremos ao som dos tambores de Shiva, o deus do tempo e da dissolução, superaremos o tempo e a morte será vista como parte do ciclo, parte da vida. Até mais.
