A Historinha do Sabiá

28 28UTC Outubro 28UTC 2009 por Roberto

Já contei pra vocês a história do Sabiá? Não recordo se lhes contei ou não, mas não querendo deixar os que desconhecem a história curiosos vou contá-la novamente. Vejam bem que essa não é história comum, ela é real, não há nada de ficção. Bem, os senhores já devem saber que não sou bom com narrativas, conto-as aos tropeções, mas essa história não, essa é uma história que se fez estória pelo seu enredo curioso, e tenho prazer em contá-la.

Meu pai chegou com a gaiola que mantinha presa a ave. Tinha dó dela, que ficava sempre com aquele canto triste, achava que ela precisava de liberdade, de novas experiências, tinha exatos nove anos quando fui apresentado ao Sabiá. Sempre gostei de animais e agora tinha um pássaro em casa, porém imaginava a angústia de estar preso, não gostava daquilo. Então certo dia, por um desatino qualquer,  deixei fugir o sabiá.

Fiquei olhando ele voar ao longe, achei fantástico, mas logo depois bateu um desespero, lembrei que meu pai iria brigar comigo, comecei a  chorar, chorava aos tantos, mas era choro misturado, de felicidade e tristeza.  Tudo em vão, pois misteriosamente o sabiá voltou pra gaiola. Vejam só, o sabiá negou para si o direito à liberdade, ele queria mesmo é que fôssemos seus criados, que déssemos banho, água e boa comida, sabiá esperto e triste aquele, morreu há pouco tempo na casa de um tio meu distante.

Quando eu já estava no Ensino Médio ficava a ouvir a poesia ufana de Gonçalves Dias e o seu sabiá e as palmeiras, gostava daquela poesia, lembrava o sabiá do meu pai,  levado por uma curiosidade literária resolvi procurar em cartilhas  e livros mais informações sobre o tal pássaro e a poesia romântica, confesso que quando o li sobre  não fiquei maravilhado, afinal era um pássaro comum, meio marrom e pequeno. Isto me causou uma decepção tal que nunca mais quis saber dos românticos ou dos sabiás, mas…

A história dos sabiás não tinha morrido ali, que nada, outro dia, ao ler um livro de manhã bem cedo fui tomado de assombro com os gritos de minha mãe a correr pra lá e pra cá no quintal. Era Aquiles, o cachorro, que engolira um filhote de sabiá, o bichinho gritava que dava pena e Aquiles brincava com ele, não queria matá-lo, ainda é filhote também, e após tanta gritaria Aquiles cuspiu o pássaro que era pequeno, ou melhor, era diminuto . Fiquei olhando e o levei para dentro de casa, coloquei a ave dentro de uma caixa de sapatos e ele ficou ali, quieto, talvez fosse o susto, mas eu estava preocupado.

A mãe do sabiá sempre aparecia na janela de casa, ela trazia no bico o alimento para o pequeno. Quando me via soltava o que estava preso ao bico e saia voando com medo. O filhote vivia fora da caixa e me olhava desconfiado, como se não tivesse feito nada. Lá fora a mãe queria o filho de volta, e eu já não tendo muito o que fazer coloquei o bichinho na árvore e o deixei lá… Depois de algum tempo fui procurá-lo e não o achei mais. Tive medo de que ele tivesse sido engolido por algum bicho perverso, e me entristeci. Será que matei o sabiá? Fiquei doente de tristeza, dormi angustiado.

No outro dia, pela manhã, estava sentado com minha namorada no quintal conversando. Contava pra ela como as coisas são bonitas, quando estava pra contar a ela do sabiá eu escutei um piar, assustado olhei para todos os lados,  pois queria encontrar o pequeno (seria a imaginação?) e eis que ele estava bem pertinho de mim, havia pousado sobre a mesa e ficara ali olhando, não estava mais assustado e parecia feliz. Tentei num movimento rápido pegá-lo, queria cuidar dele até que ele pudesse voar, mas ao me aproximar ele alçou voo e fugiu para o alto levando consigo a tristeza que cantava em meu coração de sabiá…

A Filosofia em O Feitiço do Tempo…

15 15UTC Outubro 15UTC 2009 por Roberto

“O homem comum se maravilha com o extraordinário, o sábio regozija-se com o comum”

(Confúcio)

O tempo é sempre um problema, ou uma solução, depende de como você o vê. Os egípcios costumavam dizer que existia um tempo primordial, assim como um espaço primordial, e que da junção de ambos nascia o universo, em verdade não recordo exatamente da história, mas ela é muito parecida com a que conta Hesíodo em sua Teogonia. O tempo sempre fascinou poetas e filósofos, Einstein revolucionou o século XX e modificou o modelo de pensamento vigente com sua teoria da relatividade e durante a Revolução Industrial foram criados inúmeros mecanismos para que dispuséssemos de mais tempo para nossas tarefas individuais. Ontem eu assisti a um filme muito bom, antigo que só, mas maravilhosamente reflexivo: Feitiço do Tempo. Vamos refletir um pouco sobre o filme, nada de técnico, não sei nada de cinema, só vou expor meus argumentos em relação ao tempo e mostrar como a filosofia de Confúcio se aplica ao filme em uma frase.

Imagine viver o mesmo dia por milhares de anos? Um grande problema, não? Bem, depende do ponto de vista. Imagine que nesse meio tempo de imortalidade você conseguisse estudar Medicina, Escultura, piano, e o mais importante: tornar-se um sábio. Essa talvez seja a grande sacada do filme, a transformação de um homem, diria melhor, de uma verdadeira transmutação do caráter.

Bill Murray vive uma personagem problemática (Phil Connors), um repórter que não gosta do que faz e detesta o dia em que tem que cobrir o “dia da marmota” pelo quinto ano consecutivo, além de ser extremamente arrogante e cínico, a personagem de Murray despreza aqueles que o cercam e sempre se dirige a elas com comentários irritantes e desagradáveis. Até que um dia, ao ser acordado pelo despertador do hotel em que se encontrava, descobre que vive o mesmo dia, onde encontrará as mesmas pessoas e, pior, estará preso na cidade que odeia. É o Loop time, um mecanismo imaginário em que a pessoa fica presa no tempo revivendo sempre o mesmo dia.

O que acontece é que após experiências desagradáveis e outras nem tanto (já que Phil aproveita a situação para aprontar os maiores descalabros e disparates já vistos) a personagem de Murray começa a enfrentar o tédio de viver o mesmo dia. Desesperadamente, tenta o suicídio para acabar com seu sofrimento, mas não tem muito sucesso. A vida do repórter só modifica quando ele muda sua filosofia de vida e deixa de ser uma pessoa cínica e arrogante para ser uma pessoa prestativa e humana. Logo, encontra um sentido para vida ao ajudar a todos na cidade e ressignifica sua relação com o tempo dinamizando-o, aproveita os momentos de ociosidade para estudar (lê toda a biblioteca pública da cidade), a aprender o máximo com sua desventura.

É ai que entramos com a filosofia da frase de Confúcio, que costuma dizer que o homem comum maravilha-se com o extraordinário, enquanto que o homem sábio maravilha-se com o comum, a relação entre o filme e a frase é estreita, pois o cinismo e a hipocrisia dão lugar à sabedoria e ao altruísmo. Phil Connors mesmo diante de uma situação desesperadora tira o máximo dela, e mesmo vivendo o mesmo dia, em uma situação de imortalidade senil, sabe como torná-lo diferente, quase mágico. É o comum que se tornou fantástico.

Ficar preso no dia mais odiável de sua vida, castigo? Não sei, mas Phil soube tirar proveito disso, melhorou como ser humano, deixou de ser uma pessoa desagradável e procurou um desfecho positivo para sua situação. Um belo exemplo para nós que vivemos praticamente a mesma situação, ao viver sempre as mesmas coisas todos os dias, estamos presos no tempo e não saímos dele, estamos presos as nossas vidas mais ou menos, sem muitas expectativas. Está na hora de nos maravilharmos com o comum, dinamizar o tempo e brincar com ele, não podemos mais ser escravos da roda da fortuna, ou nos tornamos sábios, ou então seremos as mesmas pessoas cínicas e enfadadas com a vida, igual a Phil Connors.

A triste história do Kiwi

12 12UTC Outubro 12UTC 2009 por Roberto

“Toda escolha implica em uma perda” (Anônimo).

Sei que a frase é forte, dura, mas ela é extremamente verdadeira. Contudo, quando a escolha implica em atitudes extremas o que fazer? Neste mundo de dualidade, quando você escolhe um caminho há de haver, consequentemente, morte do outro. Ontem estive conversando com uma amiga que dizia haver um conceito em psicologia que justificava a atitude do kiwi, o pássaro sem asas que precisa, desesperadamente, realizar seu sonho de poder voar. Quantos kiwis não existem por ai, hein? É muito difícil nascer para algo e não ser, se você é um pássaro você quer voar, se for humano quer ser humano, mas quando não se consegue isso? É dolorosa a história do kiwi, um desejo que implica em uma escolha mortal, um desejo levado ao extremo a ponto de escolher o trágico. Não precisa dizer nada, a história por si só diz.

Ps. Quem souber o conceito em psicologia que explique a atitude do kiwi que, por favor, avise este amigo aqui. Abraços.