Já contei pra vocês a história do Sabiá? Não recordo se lhes contei ou não, mas não querendo deixar os que desconhecem a história curiosos vou contá-la novamente. Vejam bem que essa não é história comum, ela é real, não há nada de ficção. Bem, os senhores já devem saber que não sou bom com narrativas, conto-as aos tropeções, mas essa história não, essa é uma história que se fez estória pelo seu enredo curioso, e tenho prazer em contá-la.
Meu pai chegou com a gaiola que mantinha presa a ave. Tinha dó dela, que ficava sempre com aquele canto triste, achava que ela precisava de liberdade, de novas experiências, tinha exatos nove anos quando fui apresentado ao Sabiá. Sempre gostei de animais e agora tinha um pássaro em casa, porém imaginava a angústia de estar preso, não gostava daquilo. Então certo dia, por um desatino qualquer, deixei fugir o sabiá.
Fiquei olhando ele voar ao longe, achei fantástico, mas logo depois bateu um desespero, lembrei que meu pai iria brigar comigo, comecei a chorar, chorava aos tantos, mas era choro misturado, de felicidade e tristeza. Tudo em vão, pois misteriosamente o sabiá voltou pra gaiola. Vejam só, o sabiá negou para si o direito à liberdade, ele queria mesmo é que fôssemos seus criados, que déssemos banho, água e boa comida, sabiá esperto e triste aquele, morreu há pouco tempo na casa de um tio meu distante.
Quando eu já estava no Ensino Médio ficava a ouvir a poesia ufana de Gonçalves Dias e o seu sabiá e as palmeiras, gostava daquela poesia, lembrava o sabiá do meu pai, levado por uma curiosidade literária resolvi procurar em cartilhas e livros mais informações sobre o tal pássaro e a poesia romântica, confesso que quando o li sobre não fiquei maravilhado, afinal era um pássaro comum, meio marrom e pequeno. Isto me causou uma decepção tal que nunca mais quis saber dos românticos ou dos sabiás, mas…
A história dos sabiás não tinha morrido ali, que nada, outro dia, ao ler um livro de manhã bem cedo fui tomado de assombro com os gritos de minha mãe a correr pra lá e pra cá no quintal. Era Aquiles, o cachorro, que engolira um filhote de sabiá, o bichinho gritava que dava pena e Aquiles brincava com ele, não queria matá-lo, ainda é filhote também, e após tanta gritaria Aquiles cuspiu o pássaro que era pequeno, ou melhor, era diminuto . Fiquei olhando e o levei para dentro de casa, coloquei a ave dentro de uma caixa de sapatos e ele ficou ali, quieto, talvez fosse o susto, mas eu estava preocupado.
A mãe do sabiá sempre aparecia na janela de casa, ela trazia no bico o alimento para o pequeno. Quando me via soltava o que estava preso ao bico e saia voando com medo. O filhote vivia fora da caixa e me olhava desconfiado, como se não tivesse feito nada. Lá fora a mãe queria o filho de volta, e eu já não tendo muito o que fazer coloquei o bichinho na árvore e o deixei lá… Depois de algum tempo fui procurá-lo e não o achei mais. Tive medo de que ele tivesse sido engolido por algum bicho perverso, e me entristeci. Será que matei o sabiá? Fiquei doente de tristeza, dormi angustiado.
No outro dia, pela manhã, estava sentado com minha namorada no quintal conversando. Contava pra ela como as coisas são bonitas, quando estava pra contar a ela do sabiá eu escutei um piar, assustado olhei para todos os lados, pois queria encontrar o pequeno (seria a imaginação?) e eis que ele estava bem pertinho de mim, havia pousado sobre a mesa e ficara ali olhando, não estava mais assustado e parecia feliz. Tentei num movimento rápido pegá-lo, queria cuidar dele até que ele pudesse voar, mas ao me aproximar ele alçou voo e fugiu para o alto levando consigo a tristeza que cantava em meu coração de sabiá…