Antes de tudo gostaria de fazer uma observação. Espero que os leitores não pensem que este texto é mais uma prova de vaidade (embora ache que seja), pois também sou tomado por ela muitas vezes (e quase o tempo todo), pois meu intuito não é dizer verdades, mas emitir uma opinião, e por mais que ela soçobre a verdade, ainda sim será opinião e mais nada, portanto, apenas um fragmento. A humildade é um caminho que nos permite valorizar o mistério que existe diante de nós, que nos permite compreender que somos pequeninos diante da grandeza de deus e do universo, a humildade é a verdadeira chave para o entendimento da verdade, porque quando nos despojamos de todos os conceitos é que podemos visualizar o sagrado que existe em nós.
A vaidade
Desde o início do tempo (e talvez para mais além dele) os mestres e sábios transmitiam seus ensinamentos para a massa por meio de parábolas e historietas que escondiam um mistério próprio do homem, os chamados mitos. Essas histórias são conhecidas hoje como anedotas explicativas sobre como os antigos descreviam os fenômenos inexplicáveis da natureza, mas não é nada disso, um mito, como a própria palavra diz, trata daquilo que está oculto e silencioso dentro do coração de cada um.
Um desses mitos trata do rei Midas, um rei imprudente e ganancioso que após conduzir o fauno Sileno à presença de Dionísio (aquele havia se extraviado da morada do deus) foi recompensado por este com um pedido, apenas um, sendo que poderia pedir aquilo que quisesse. Midas nem pensou duas vezes, solicitou a Dionísio que tudo que pudesse tocar dali em diante virasse ouro, o deus, consciente da falta de luz do solicitante, atendeu ao pedido.
Ao chegar ao seu suntuoso castelo, Midas tratou de verificar a sua sorte, tocou as portas do palácio e elas se transformaram em ouro, imediatamente. Mas, como nem tudo que reluz…, o nosso anti-herói começou a perceber que a Fortuna, como deusa instável, costuma girar às vezes repentinamente o seu leme. Assim, ao tocar em uma taça de vinho, por exemplo, ela se tornou ouro, o pão também e até mesmo sua pequena filha, a quem tanto amava, tornou-se uma bela estátua de metal.
Há pessoas que se comportam da mesma forma como Midas. Na verdade esta é uma história sobre a vaidade, aquele vício que nos diz que somos insubstituíveis e especiais filhos da criação. Ela nos faz crer que os outros nasceram para nos servir e que tudo que fazemos em relação aos demais e a nós é um bem inexorável e que não pode ser medido. Tudo que tocamos é ouro. A vaidade é um dos maiores males que existem, a partir dela não deixamos que nos façam sugestões e nem aceitamos conselhos, achamo-nos autossuficientes e sábios o bastante para espalhar pelo mundo nossas gotas de sabedoria, sem ao menos ter a preocupação em vivê-las.
A vaidade é filha da ilusão, penso, e da mentira. A pior mentira contada a um ser humano é a de que ele é um ser insólito e fantástico aos olhos dos deuses. A vaidade nos faz acreditar, por exemplo, que somos melhores do que os outros por possuirmos mais coisas que eles (mesmo que a maioria delas seja completamente inútil), consideramos o status uma verdade, sem perceber que em um mundo de sete bilhões de pessoas somos apenas mais uma, e apenas um segundo diante da eternidade do universo. A vaidade coloca em nossas cabeças a terrífica ideia de que o meu bem pode ser o bem de todos, esquecendo que nem sempre o que é bom para a abelha é bom para a colmeia.
Temos vários subtipos de vaidade, entre elas a acadêmica, um sistema que admite a ideia de que, ao dominar um discurso, tenho o direito a ser arrogante para com os outros. Todos nós, em algum sentido, ao dominar um determinado conceito nos tornamos fechados para as ideias alheias. Passamos a não acreditar mais em nada, a não ser em nossos próprios descalabros e, assim, tornamo-nos os piores fanáticos, porque passamos a considerar a nossa verdade como a única viável. E não é esta a postura de muitos “cientistas” que ao desconsiderarem algo por não saber explicá-lo procuram tachar àqueles que buscam uma explicação de tolos e ingênuos?
Nunca é de mais recordar Sócrates que, ao ser tido como mais sábio de Atenas pelo Oráculo de Delphos, deixou-se apenas dizer que nada sabia, ou então Cristo que interpelado por um governador romano simplesmente manteve o silêncio ante a pergunta, pois tudo que dissesse limitaria o próprio conceito daquilo que lhe foi perguntado. Eles possuíam esta virtude que esquecemos: humildade de coração, e olha que eram sábios, e procuravam ratificar suas teorias com sua postura diante da vida.
A verdadeira heresia
Impregnados pelo individualismo e pelo personalismo, acreditamos naquilo que os orientais chamam de heresia da separatividade, que diz que o outro nada tem a ver comigo, que somos unidades distintas, que não preciso do outro para ser feliz, etc. Temos de extirpar esta ideia da mente e, principalmente, do coração, devemos servir humildemente aos nossos irmãos, ajudar a cada pessoa que te estende a mão quando ela precisar. Como o colar de Shiva, em que um fio passa por todas as pérolas, devemos entender que há algo em comum em todos nós e que a tristeza de um é a nossa, essa é a ideia da compaixão, e a compaixão é humildade.
Ao termos este sentimento em nós, poderemos observar que tudo que tocaremos não virará apenas um frio metal reluzente, mas ocorrerá uma transmutação verdadeiramente alquímica do mundo e o literal virará o simbólico e teremos em nós um coração de fogo, o coração metafísico, capaz de não apenas transformar, mas eduzir em nós a nossa verdadeira essência, e para isso é necessário uma postura enérgica para com a vaidade, entender que devemos servir humildemente, e que somente pelo Amor e pela Compaixão é que poderemos vislumbrar, ainda de longe e na ponta dos pés, aquilo que muitos chamam de Verdade.
Um abraço.