“Aos poucos é que se avança sobre o tempo e não no tempo” (Aquiles)
Há um fenômeno contemporâneo, mas não muito recente, de uma total descrença do ser humano pelo ser humano. Como é comum observar frases do tipo: “não se deixe confiar, não seja tolo, o ser humano é capaz de tudo”. É verdade, somos capazes de tudo, inclusive de coisas boas e positivas. É evidente que não podemos descartar a natureza do mal, fruto da mente inferior do homem, não podemos ser ingênuos, contudo, não podemos também perder a esperança em nós mesmos.
Há uma frase de Luther King bastante interessante sobre o tema de hoje, ela diz o seguinte: “aprendemos a nadar como os peixes, a voar como aves, mas não aprendemos a conviver como irmãos”, o grande problema deste século (e de outros) é a falta de um compromisso real para compreender e aceitar o outro, o problema da convivência.
Conviver é uma palavra interessante, que pode ser dividida e, assim, fica mais fácil de compreendê-la, con-viver, ou seja, viver com o coração, tocar o que há de comum entre você e o outro, ou melhor, harmonizar por oposição as diferenças. Há um poema de Carlos Drummond de Andrade, em que a ideia principal é essa ausência para com o semelhante, o poeta diz que chegamos a colonizar o universo, mas não conseguimos ter amor uns pelos outros, um problema que deve ser considerado, pois a convivência é inevitável – O homem não é uma ilha.
Em casa, por exemplo, sempre observamos pessoas de interesses e motivações completamente diferentes, suas particularidades ou nos atraem ou fazem com que nos sintamos distantes daqueles indivíduos. Há somente duas forças neste universo, a atração e a repulsão. Somos inclinados a gostar de pessoas pelas quais temos afinidades, interesses em comum etc. Muitas vezes, deixamos de entrar em contato com nossos pares devido ao seu estilo destoante em relação ao nosso.
Nessas horas, é importante ceder, mostrar que você tem interesse para com aquela outra pessoa, não importa se os fatores externos são diferentes, o que importa são os valores que levamos conosco, internamente. Neste sentido, temos que nos despojar da vaidade, e mostrar que aquele ser é importante e faz parte da nossa vida e buscar com ele sempre um consenso, um diálogo saudável, o que facilita o convívio e nos ajuda a caminhar com mais disposição. Assim, você exercita a humildade e de quebra constitui um bom relacionamento dentro de casa.
Outro exemplo em que devemos viver o espírito da convivência trata da questão da Amizade. Como é difícil hoje, no mundo moderno, que prioriza as relações descartáveis e superficiais, baseadas em trocas materiais, criar um vínculo. Quando conseguimos, temos a sensação de ter encontrado algo muito valioso ou especial.
No início não haverá problemas, como em toda e qualquer relação, contudo haverá o momento dos conflitos, eles são necessários e fazem parte do espírito da convivência, uma relação sem conflitos é uma relação passiva, sem movimento, inerte, como qualquer coisa que, se parada, em estado paralítico, imóvel, apodrece. O movimento é o que dá vida a tudo que nos rodeia e, neste sentido, ficar parado é uma ativude covarde diante da vida, esperar que tudo seja como queiramos, algo que jamais se estabelecerá, a vida não nos dá o que queremos, mas o que precisamos.
A falta de um sentimento de unidade em relação à comunidade, ou seja, a ausência de respeito aos outros também deve ser um aspecto a ser observado. Hoje, por exemplo, vinha no coletivo e fiquei incomodado com volume do rádio insuportavelmente alto do passageiro que estava a três bancos à frente do meu. O quanto foi desagradável a viagem por conta da falta de um espírito coletivo. Esse é um dos pontos fundamentais da filosofia oriental, que trata da heresia da separatividade. Quando acredito que o outro em nada tem a ver comigo, quando o vejo como algo separado de mim, isto pode me levar a crer que a infelicidade do outro pode gerar a minha felicidade.
Neste ponto, é importante diluir o ego, ter a sensibilidade de que nossos estilos não podem ser sobrepostos aos dos outros, pois cada qual tem suas preferências e maneira de encarar o mundo e não podemos ser tiranos e acreditar que todo mundo precisa aceitar sempre o que queremos e acreditamos. Leis, dessa forma, possibilitam a convivência de uma forma harmônica, contudo a existência delas não garante o equilíbrio social, é importante ter consciência delas e, principalmente, reconhecer que para viver em sociedade é necessário ter em vista o outro como parte de mim. Quando agimos por uma motivação verdadeiramente altruísta possibilitamos um movimento em direção à convivência em sociedade de forma construtiva e ativa. A verdadeira Lei é aquela que se faz presente em nosso coração, o núcleo central.
Já em termos de mundo, é pela falta de uma tentativa de convivência, de respeito aos demais, de uma busca pelo entendimento da cultura de cada um, que ocorre o que estamos vendo em certos continentes. Conflitos sobejam de todas as partes do planeta, muitos motivados por religião, outros por disputas ideológicas, ou falta de entendimento dos costumes de um determinado povo. Se houvesse um pouco mais de racionalidade, um pouco de critério, talvez tivéssemos mais de ¾ dos conflitos resolvidos. Bastava que alguém procurasse estudar de uma forma comparativa as religiões, por exemplo, para perceber que elas derivam de um mesmo tronco, e que todas, de uma certa forma, levam a deus, ou ao sagrado. Se há tantos homens tão diferentes, por que a religião deveria ser igual para todos?
Somos homens ditos modernos, porém deveríamos também ser mais modernos em matéria de relações humanas, o que ainda se observa é que ainda estamos em um nível muito rudimentar da coisa e, pior, não conseguimos ou não temos procurado avançar. Muito pelo contrário, estamos cada vez mais interessados em direcionar as coisas para o individual em detrimento do coletivo. Tratar com dignidade cada ser vivo, olhar para eles não com um sentimento utilitarista, mas sim como irmãos, maiores ou menores, e fundamentais para nosso crescimento, este talvez possa ser o caminho para a Fraternidade Universal.
28 28UTC dezembro 28UTC 2011 às 10:17 pm |
Isso à o que significa viver no mundo da Lua e ter coragem de olhar de cima para baixo para 99 da humanidade.
29 29UTC dezembro 29UTC 2011 às 2:48 am |
Não vi, em momento algum, qualquer tipo de demonstração de vaidade. São apenas ideias, convicções pessoais, não peço que ninguém as siga, nem faço coro para isso. Da próxima vez assine o comentário para que possamos debater de uma melhor forma, sem problemas e com todo respeito.