Não sei se todos recordam da cena maravilhosa em que Charlie Chaplin no clássico Tempos Modernos (uma das comédias mais fascinantes de todos os tempos) parafuseia uma geringonça sem parar e fica desnorteado com aquele movimento repetitivo e constante e por que não dizer inconsciente que refletia bem os tempos daquela época da revolução: a máquina no lugar do homem. E como não recordar também de Alice no País das Maravilhas e o Coelho Maluco que com sua cartola e seu relógio de bolso corria em disparada sempre atrasado para seus compromissos, um símbolo do homem moderno, apressado e escravo do tempo? Velhos tempos, em que as máquinas e o tempo foram os inimigos do homem, os problemas modernos. FORAM! Embora ainda encontremos esses males entre nós há, atualmente, um mal ainda maior e que representa maior sofrimento: a inconstância.
A inconstância é um sentimento muito comum hoje, mas não podemos dizer que seja normal. Vamos começar com uma explicação bem simples e simples não quer dizer simplória. Digamos que o corpo humano seja dividido tal como Platão afirmou em sua República em Corpo, Psiquê e Espírito, oras, sabemos que isso é poderia ser correto, mas por que não dizer simbólico? O corpo representa nossa parte física, mecânica, a Psiquê nossas emoções e sentimentos e o espírito é o que torna o homem em indivíduo.
Vamos nos ater na Psiquê que representa nossas emoções e nossos sentimentos, os quais são coisas bem distintas. As emoções são sempre fugazes, sempre querem o novo, algo que consideram diferente, maravilham-se com o inédito, e se caracterizam pela curiosidade. Já os sentimentos são emoções mais, digamos, concretas, são mais consistentes, menos flexíveis e representam o que há de melhor na psique. Creio que em nosso mundo pós-moderno temos sido tomados pelas emoções menores e nos tornado escravos dos apelos inconseqüentes de nossa alma, que sempre reclamam pelo novo.
Uma nova roupa, um novo celular, um novo amor, queremos tudo ao mesmo tempo, e sem espaço para digerir nossas escolhas nós as descartamos. Mal nos acostumamos a algo e logo o achamos sem graça, sem aquele brilho que tinha há uma semana. É a velha conversa do ter que não se reflete no ser, mas não apenas isso, queremos ter inconsequentemente, pelo simples prazer, não porque realmente necessitamos, mas pela vaidade grosseira que arrasta nossa mente para um campo de ideias não muito interessante.
Um exemplo muito comum é o das paixões, velhas conhecidas nossas e que sempre trazem “belas” surpresas. É normal hoje você encontrar pessoas que não tem consistência nos relacionamentos, para elas o importante é curtir, ser feliz é viver o descartável e não coincidentemente essas pessoas (não são todas, claro) amargam a depressão, a tristeza e a infelicidade, por quê?
Acho que a resposta está exatamente na inconstância, temos medo de ter algo consistente e real. Falo isso porque já fui assim, tinha medo de me relacionar e enxergar mais além, ter um futuro com alguém, nem pensar, o que eu precisava era curtir a vida, ficar com um monte de garotas e seguir em frente, mas o engraçado é que eu sempre reclamava da maldita solidão, oras, é claro e óbvio, eu nunca estive em companhia de ninguém, apenas queria algo para mim, viver as coisas no sentido individual, havia esquecido o que tinha aprendido com algumas pessoas de que quando se vive algo duradouro esse algo é o que há de mais belo e precioso, porque ele se renova a cada dia e se torna mais forte, ainda mais quando alimentado por um sentimento verdadeiro.
Esse sentimento de inconstância é uma verdadeira erva daninha e o calcanhar de Aquiles de muita gente. Seja qualquer coisa sempre estamos querendo algo diferente, que nos faça feliz e autosuficiente, mas será que o caminho é esse? Será que o inovador não é nesse caso justamente uma ideia conservadora? Pensem a respeito. Tenho pensado nesse mal moderno, imaginem como Chaplin o representaria hoje? A resposta? Deixo com vocês.