Posts de Setembro, 2009

A Inconstância…

18 18UTC Setembro 18UTC 2009

Não sei se todos recordam da cena maravilhosa em que Charlie Chaplin no clássico Tempos Modernos (uma das comédias mais fascinantes de todos os tempos) parafuseia uma geringonça sem parar e fica desnorteado com aquele movimento repetitivo e constante e por que não dizer inconsciente que refletia bem os tempos daquela época da revolução: a máquina no lugar do homem.  E como não recordar também de Alice no País das Maravilhas e o Coelho Maluco que com sua cartola e seu relógio de bolso corria em disparada sempre atrasado para seus compromissos, um símbolo do homem moderno, apressado e escravo do tempo? Velhos tempos, em que as máquinas e o tempo foram os inimigos do homem, os problemas modernos. FORAM! Embora ainda encontremos esses males entre nós há, atualmente, um mal ainda maior e que representa maior sofrimento: a inconstância.

A inconstância é um sentimento muito comum hoje, mas não podemos dizer que seja normal. Vamos começar com uma explicação bem simples e simples não quer dizer simplória. Digamos que o corpo humano seja dividido tal como Platão afirmou em sua República em Corpo, Psiquê e Espírito, oras, sabemos que isso é poderia ser correto, mas por que não dizer simbólico? O corpo representa nossa parte física, mecânica, a Psiquê nossas emoções e sentimentos e o espírito é o que torna o homem em indivíduo.

Vamos nos ater na Psiquê que representa nossas emoções e nossos sentimentos, os quais são coisas bem distintas. As emoções são sempre fugazes, sempre querem o novo, algo que consideram diferente, maravilham-se com o inédito, e se caracterizam pela curiosidade. Já os sentimentos são emoções mais, digamos, concretas, são mais consistentes, menos flexíveis e representam o que há de melhor na psique.  Creio que em nosso mundo pós-moderno temos sido tomados pelas emoções menores e nos tornado escravos dos apelos inconseqüentes de nossa alma, que sempre reclamam pelo novo.

Uma nova roupa, um novo celular, um novo amor, queremos tudo ao mesmo tempo, e sem espaço para digerir nossas escolhas nós as descartamos. Mal nos acostumamos a algo e logo o achamos sem graça, sem aquele brilho que tinha há uma semana. É a velha conversa do ter que não se reflete no ser, mas não apenas isso, queremos ter inconsequentemente, pelo simples prazer, não porque realmente necessitamos, mas pela vaidade grosseira que arrasta nossa mente para um campo de ideias não muito interessante.

Um exemplo muito comum é o das paixões, velhas conhecidas nossas e que sempre trazem “belas” surpresas. É normal hoje você encontrar pessoas que não tem consistência nos relacionamentos, para elas o importante é curtir, ser feliz é viver o descartável e não coincidentemente essas pessoas (não são todas, claro) amargam a depressão, a tristeza e a infelicidade, por quê?

Acho que a resposta está exatamente na inconstância, temos medo de ter algo consistente e real. Falo isso porque já fui assim, tinha medo de me relacionar e enxergar mais além, ter um futuro com alguém, nem pensar, o que eu precisava era curtir a vida, ficar com um monte de garotas e seguir em frente, mas o engraçado é que eu sempre reclamava da maldita solidão, oras, é claro e óbvio, eu nunca estive em companhia de ninguém, apenas queria algo para mim, viver as coisas no sentido individual, havia esquecido o que tinha aprendido com algumas pessoas de que quando se vive algo duradouro esse algo é o que há de mais belo e precioso, porque ele se renova a cada dia e se torna mais forte, ainda mais quando alimentado por um sentimento verdadeiro.

Esse sentimento de inconstância é uma verdadeira erva daninha e o calcanhar de Aquiles de muita gente. Seja qualquer coisa sempre estamos querendo algo diferente, que nos faça feliz e autosuficiente, mas será que o caminho é esse? Será que o inovador não é nesse caso justamente uma ideia conservadora? Pensem a respeito. Tenho pensado nesse mal moderno, imaginem como Chaplin o representaria hoje? A resposta? Deixo com vocês.

Uma estranha Estrela

18 18UTC Setembro 18UTC 2009

Acima dos arranhas céus havia um céu livre de densas nuvens, porém, abarrotada de infinitas estrelas que brilhavam na mesma intensidade sob uma sincronia previamente ensaiada. Ao Sul desta imensidão, rente a uma grandiosa constelação, existia uma estrela de médio porte, mas irresistivelmente peculiar.

Era banhada numa claridade ofuscante e dava a impressão de que teimava em brilhar para além do amanhecer. Enquanto que as demais estrelas obedeciam cegamente à pontualidade exigida pelo Astro Rei e, gradativamente, tornavam-se acromáticas antes mesmo que o dia raiasse.

Certa noite, a nossa especial estrela, ainda tomada pela tranquilidade celestial, sentiu-se estupefata diante de toda aquela comodidade. Ela se olhou e percebeu parada naquele ponto, o mesmo ponto, um ponto fixo que era a sua morada localizada num mero pedaço do céu.

A sensação era única, jamais sentira tal estranheza pelo calmo ponto. Seu corpo estava seco e já não sentia como de costume o frio do universo. Sentimentos e pensamentos novos surgiam a todo o momento, queria ela definir aquela agonizante sensação, mas que no fundo a agradava.

Num ato impensado iniciou uma turbulenta viagem cuja estrada era estreita. Em alguns momentos a Estrela era forçada escolher qual direção tomar. Desses caminhos ela encontrou gigantescos meteoros que arrastavam com eles desavisados corpos celestiais à sua viagem ao nada.

Às vezes sua visão ficava embaçada por causa de um rastro de poeira de outras excursões rumo a alguma coisa. Em meio a esta poeira espacial ela pôde selecionar certas experiências que poderiam contribuir para a permanência de sua existência e seus objetivos, objetivos que, sob o olhar do poeta, são sonhos.

Depois de muito tempo, talvez anos e milhões de anos, finalmente a nossa Estrela encontrou a anos-luz da sua antiga morada, outra constelação de dinâmica celestial totalmente diferente. Era outro ambiente que sem uma explicação exata enriquecia suas expectativas, alimentava seus sonhos e aproximava-a da tal felicidade.

Mas como descrito no início da história, ela era e é uma estrela peculiar. É dona de uma coragem inabalável tão quanto os seus sonhos. Novamente sentiu-se inquieta. A mesma sensação que a levara cair neste local estava fazendo com que ela desejasse sair dali o quanto antes e iniciar outra longa jornada.

Sua inquietude não permitia fixar-se num único lugar quando tudo que lhe ofereciam já não era o bastante. Decidida em ter uma vida inteira de conquistas e superações, ela partiu sem olhar para trás. Levou consigo as experiências e lembranças de tudo e todos que fazem dela uma Estrela incomum, persistente e ágil… Uma estranha estrela!

Heloisa Rodrigues*

* Heloísa agora é colaboradora do blog, espero que essa parceria vá longe. Abraços amiga,

Mas eu me mordo de ciúmes…

16 16UTC Setembro 16UTC 2009

Algumas pessoas têm me dito que ciúme é prova de amor, mas eu não acredito nisso. Não sei o porquê, mas para mim o ciúme é uma prova cabal de vaidade e de culto ao ego, calma, eu explico. Pense na seguinte situação: a pessoa está em casa se remoendo por dentro, com aqueles vermes mentais na cabeça tentando buscar algo para incriminar seu companheiro (a), basca uma lasca de suspeita para que o inferno se crie: pronto, está feito uma crise de ciúmes, e todos os dias os jornais encharcados de sangue trazem aquela velha notícia: “matou por amor”. Será que alguém mata por amor? Eu discordo.

Para mim tal comportamento é uma doença psíquica que todos nós temos (ou vocês achavam que eu não tinha ciúme?) que acomete ao ego que por medo de perder sua posição privilegiada na vida de alguém se recente. Sim, é exatamente isso, o ciúme é o medo de perder o que você considera como propriedade absoluta: o coração de alguém. Não é pela razão de você amar a pessoa que temos essas crises tolas, não, o que nós temos de fato é o medo de perder para nós mesmos e de sermos passados pra trás por alguém melhor do que nós, esse é o motivo real do ciúme e essa é a razão dos crimes passionais, palavra que se mistura a paixão,  outra doença emocional necessária para todo e qualquer relacionamento, afinal, sem combustão o carro não anda.

Tenho medo do ciúme, mas às vezes eu me mordo com ele, igual a música do Ultraje a Rigor, mas sei que esse é um comportamento menor, que toca mais a individualidade do que o pensamento a dois. Ter ciúmes é sentir-se preso as amarras criadas pela mente inferior, uma antiga inimiga que embota nossos pensamentos com receio, medo e outras picuinhas lamentáveis. O amor nada tem a ver com ciúmes, mas sim com o sentimento de liberdade e confiança que devotamos aos nossos companheiros. Amar significa ser livre, e agir de acordo com nosso coração e não com nossas emoções menores e pequenas. Que todos nós vivamos o amor em todo seu esplendor e magnitude, e que deixemos essa emoção decrépita e raquítica de lado. Abraços.