Vai Passar…

By Roberto

“No tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada  da  memória, das nossas novas gerações” (Chico Buarque)

É com o imenso pesar que aviso, aos leitores amigos, que nosso país está por agonizar. Mas calma, meu caro leitor, ele ainda suspira e, lentamente, imprime seus últimos pensamentos no incauto coração do povo brasileiro. Marcado em seu peito está a enorme chaga da ingratidão, daquele que deu tudo e não cobrou nada, mas eis que ainda sorri e como um bom malandro conta anedotas de nossa história recente, pois convenhamos, caros amigos, não temos história, somos apenas uma crônica na imensa narrativa humana.

Gosta de relembrar. É uma característica daqueles que padecem. É novo, não conta quinhentos anos, mas desgraçadamente sente-se velho, entristecido pela juventude, sua filha caçula, herdeira da responsabilidade de continuar a sua história. Quando recorda, chora, olha de relance o mundo lá fora e percebe que a nossa juventude é velha, carente e covarde. Ele esbraveja, tenta um discurso, levanta e ensaia uma posição altiva, mas logo desata a chorar.

Rememora alguns pontos de nossa história, seus olhos se deixam vaguear, encontram o infinito próprio dos deuses, olha ao longe, para o eterno, vê os vinte anos de ditadura, observa Getúlio baixinho e fascista no Palácio do Catete, o imperador Pedro II a cantar as glórias do império, vê Chico Buarque compor Angélica e acompanha com sofrimento a angústia dos jovens mortos nos porões, torturados humilhados. Nesse momento pára, coloca as mãos sobre os olhos e vê pelo seu corpo as chagas de um tempo que não se pode esquecer.

Olha mais além e, surpreendido, vê Cartola cantar Alvorada, imediatamente meu amigo esboça um sorriso, ensaia com as mãos um batuque de bandeiro, seu coração acelera, dá pancada na sua alma, o faz acreditar novamente, a enxergar possibilidades, porém, seu coração volta a ficar sobressaltado. Cachoeiras são construídas em mansões de presidentes, a política neoliberal que se instala e se curva ante ao vício do lucro, o metalúrgico que se tornou presidente e que prometeu  mudar o país, mas não mudou, mudou a sua própria vida e só, mais nada.

Pára exatamente ai, não quer enxergar o futuro, não se sabe se tem medo, ou se tem a firmeza de que haverá novos tempos, apenas tem em si o otimismo cego de um idealista que vê em cada brasileiro um infinito de possibilidades. Então, suas feridas saram, seu coração volta ao ritmo normal e completamente recuperado veste seu terno branco,  coloca seu chapéu coco e empunha sua antiga bengala com o brasão nacional e sai. Dizem que anda por ai, pelas regiões do nosso país a levar a alegria ao povo, e que é fácil reconhecê-lo, pois dizem que canta a eterna música do Chico, “Vai passar, nessa avenida um samba popular…”

Uma resposta para “Vai Passar…”

  1. Gisele Fabris Disse:

    Bom texto, meu caro.
    Penso que o Brasil tem um governo que é espelho de seu povo.

    Bjossss

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