Noite de fim de primavera, chuva intensa no país das tragédias, os vidros dos coletivos estão embaçados, tal como os sentidos da maior parte do mundo. Procuro olhar por entre a opacidade dos espelhos opacos e percebo que meu coração não era meu coração. Trazia em mim um peito vazio. Não tenho certeza, mas faltava em mim a caixa dos milagres, o sol eterno que projeta no corpo o milagre do cosmo, faltava em mim o comboio de cordas, que pulsa e vibra, que bombeia o sangue por entre as artérias de pequeno e grosso calibre, não tinha em mim o sol, havia somente o vazio.
Não olhava para os lados, somente para o caos lá de fora, o trânsito infernal: o caos. O curioso é pensar que existe um padrão na falta de lógica, o caos não é o oposto da ordem, mas o primo pobre, que ao longe esconde seu padrão, que o torna apenas secundário, figurativo e obscuro. Olho meu relógio, o tempo progressivo, cartesiano, estável. Contudo, não tenho a mente voltada para o tempo comum, diante de mim passam todos os tempos do mundo, olho não para o que há adiante, mas para o universal, o infinito. Vejo o tempo como um nenúfar, o tempo é um mistério: belo, como o canto dos sinos ao longe.
Gotejam lágrimas sobre meu rosto, marcando-o como um ferro em brasa. Mas, uma sensação estranha toma conta de mim repentinamente e sinto-me acalentado. Então, olho ao lado e, surpreendido, vejo a eterna menina, com seus cabelos longos e sua franja pendida ao lado a olhar-me com seu olhar terno e complacente. Não era apenas uma menina, era a mãe de todas as almas, a contemplar um de seus filhos.
Ela senta ao meu lado e com suas mãos afaga carinhosamente meu rosto a enxugar cada lágrima de meu espírito. Ela, por fim, me abraça, diz para eu não chorar, pois meu coração é invisível porque é metafísico, meu coração não existe individualmente, pois ele representa todos os corações do mundo que renasce pleno e reluzente, ao amanhecer, no cantar pleno de esperança de um pássaro pequenino.