Posts de Junho 10th, 2009

Meu Coração é Metafísico

10 10UTC Junho 10UTC 2009

Noite de fim de primavera, chuva intensa no país das tragédias, os vidros dos coletivos estão embaçados, tal como os sentidos da maior parte do mundo. Procuro olhar por entre a opacidade dos espelhos opacos e percebo que meu coração não era meu coração. Trazia em mim um peito vazio. Não tenho certeza, mas faltava em mim a caixa dos milagres, o sol eterno que projeta no corpo o milagre do cosmo, faltava em mim o comboio de cordas, que pulsa e vibra, que bombeia o sangue por entre as artérias de pequeno e grosso calibre, não tinha em mim o sol, havia somente o vazio.

Não olhava para os lados, somente para o caos lá de fora, o trânsito infernal: o caos. O curioso é pensar que existe um padrão na falta de lógica, o caos não é o oposto da ordem, mas o primo pobre, que ao longe esconde seu padrão, que o torna apenas secundário, figurativo e obscuro. Olho meu relógio, o tempo progressivo, cartesiano, estável. Contudo, não tenho a mente voltada para o tempo comum, diante de mim passam todos os tempos do mundo, olho não para o que há adiante, mas para o universal, o infinito. Vejo o tempo como um nenúfar, o tempo é um mistério: belo, como o canto dos sinos ao longe.

Gotejam lágrimas sobre meu rosto, marcando-o como um ferro em brasa. Mas, uma sensação estranha toma conta de mim repentinamente e sinto-me acalentado. Então, olho ao lado e, surpreendido, vejo a eterna menina, com seus cabelos longos e sua franja pendida ao lado a olhar-me com seu olhar terno e complacente. Não era apenas uma menina, era a mãe de todas as almas, a contemplar um de seus filhos.

Ela senta ao meu lado e com suas mãos afaga carinhosamente meu rosto a enxugar cada lágrima de meu espírito. Ela, por fim, me abraça, diz para eu não chorar, pois meu coração é invisível porque é metafísico, meu coração não existe individualmente, pois ele representa todos os corações do mundo que renasce pleno e reluzente, ao amanhecer, no cantar pleno de esperança de um pássaro pequenino.