Não era tarde, mas é certo que não era cedo, o coletivo trafegava lentamente pelas ruas da cidade atormentada. Não suspendia o olhar, estava imerso nos pensamentos, não recordo exatamente no que pensava, se em um novo texto, ou um verso livre e pobre, não, não sei exatamente no que pensava, a única certeza que tinha é que o ônibus sacolejava, mas eu pouco me importava com o que acontecia fora, nunca fui de prestar atenção em nada, o que me importava era o mundo cá dentro de mim, não era vasto, mas era meu, com meu vulcão e minha rosa encoberta pela redoma, mais nada. Mas algo ocorreu repentinamente, suspendi os pensamentos que cansados da minha mente repetitiva foram contar das suas a outras pessoas, fiquei em silêncio a ouvir o que me dizia a vida mais uma vez.
Foi quase que como um estalo mental. Pulei sobressaltado da cadeira, mas ninguém notou, só sei que uma gargalhada estrondosa e algumas frases geniais ganharam o espaço, daquelas assertivas que não reconhecem o tempo e se tornam imortais, tudo pela razão de ter sido dita com ternura. Se os senhores conhecem a ternura hão de saber: ela comove. Tive certeza disso naquele momento, naquela frase, naqueles gestos, naquele jeito especial de ver o mundo que cativou a todos, não digo que esboçaram um sorriso sem graça, mas projetaram para dentro de si o melhor dos sorrisos, aquele sorriso que como diz o poeta é pontual.
O segredo do susto e da reação dos passageiros era um moleque. Um moleque na fase dos porquês e das frases insólitas. Admirado olhava o mundo lá fora, e para cada coisa que via soltava uma afirmativa, mas eu olhava e não via o que o menino apreciava tanto, depois aprendi o mistério, aquele mistério do Pequeno Príncipe, da frase de concurso de beleza: “o essencial é invisível aos olhos”. Entendi tudo. Bem, vamos aos fatos.
O pai não falava nada, estava aborrecido e lia o caderno policial manchado de sangue. A mãe não, ela compreendia o mistério, pois as elas, as mães, conhecem todos os mistérios do coração das crianças, também não falou nada, estragaria o momento. A criança continuava sorrindo, olhava para o mundo lá fora e não enxergava a fome, a miséria, e tudo o mais que torna feio o mundo real, para ela o mundo não era real, era místico, não que isso fosse fantasioso, nada disso, o mundo das crianças é pura imaginação e ela, a imaginação, é força poderosa e criativa. “Mais imaginação e menos pensamento”, era o que eu pensava e o que criança dizia com o coração e o que todo mundo percebeu.
Recordo que, em um dado momento, passávamos em frente a uma praça quando ele exclamou de repente: – papai! Olha aquela cachoeira linda, a gente pode vir tomar banho aqui? Eu rapidamente olhei para os lados para procurar a cachoeira e nada vi, havia apenas uma fonte antiga, mas eu olhava sem a imaginação do menino, pois a fonte bela e esquecida em meio à praça era a tal cachoeira do pequeno, não pude conter o riso, sorri com o melhor que havia em mim, não de deboche, mas das maravilhas que uma criança pode produzir. É aquela mística desconhecida dos adultos e seu mundo eternamente chato, aborrecido.
Depois, mais a frente, ele olhava as crianças pedindo esmola, carentes, magérrimas de fome, carinho e respeito. Parou, olhou, e disse: – mãe! Olha um menino, mas por que ele está na rua, mãe? Cadê a mãe dele? Ela não disse nada, apenas baixou a cabeça, a maioria estava com ela, os passageiros também pararam e refletiram entristecidos e eu continuava a prestar atenção, não pensava em nada, não queria pensar, queria apenas ter em mim aquele coração que não enxergava as maldades do mundo. Quem sabe, um dia deus me deixe olhar na sua caixa de milagres, haverei de pedir que todos os homens tenham o coração de menino, e não de homens, pois assim não haverá mais crianças nas ruas, todos eles terão mães cuidadosas e ternas, serão felizes e todas as fontes serão cachoeiras.
Tudo imaginação, e não fantasia. Afinal, o que custa sonhar com o que é belo? Não se trata de mascarar a realidade, mas sonhar com o mundo possível cheio de otimismo. Se você, amigo leitor, não sonha com o mundo assim é porque seu coração já não é mais um coração e sim um aparato eletrônico sem vida, mecânico e frio. Deixaste de ser humano, és agora máquina e números, mais nada.