Posts de Junho, 2009

Mais Imaginação, menos Pensamento…

25 25UTC Junho 25UTC 2009

Não era tarde, mas é certo que não era cedo, o coletivo trafegava lentamente pelas ruas da cidade atormentada. Não suspendia o olhar, estava imerso nos pensamentos, não recordo exatamente no que pensava, se em um novo texto, ou um verso livre e pobre, não, não sei exatamente no que pensava, a única certeza que tinha é que o ônibus sacolejava, mas eu pouco me importava com o que acontecia fora, nunca fui de prestar atenção em nada, o que me importava era o mundo cá dentro de mim, não era vasto, mas era meu, com meu vulcão e minha rosa encoberta pela redoma, mais nada. Mas algo ocorreu repentinamente, suspendi os pensamentos que cansados da minha mente repetitiva foram contar das suas a outras pessoas, fiquei em silêncio a ouvir o que me dizia a vida mais uma vez.

Foi quase que como um estalo mental. Pulei sobressaltado da cadeira, mas ninguém notou, só sei que uma gargalhada estrondosa e algumas frases geniais ganharam o espaço, daquelas assertivas que não reconhecem o tempo e se tornam imortais, tudo pela razão de ter sido dita com ternura. Se os senhores conhecem a ternura hão de saber: ela comove. Tive certeza disso naquele momento, naquela frase, naqueles gestos, naquele jeito especial de ver o mundo que cativou a todos, não digo que esboçaram um sorriso sem graça, mas projetaram para dentro de si o melhor dos sorrisos, aquele sorriso que como diz o poeta é pontual.

O segredo do susto e da reação dos passageiros era um moleque. Um moleque na fase dos porquês e das frases insólitas. Admirado olhava o mundo lá fora, e para cada coisa que via soltava uma afirmativa, mas eu olhava e não via o que o menino apreciava tanto, depois aprendi o mistério, aquele mistério do Pequeno Príncipe, da frase de concurso de beleza: “o essencial é invisível aos olhos”. Entendi tudo. Bem, vamos aos fatos.

O pai não falava nada, estava aborrecido e lia o caderno policial manchado de sangue. A mãe não, ela compreendia o mistério, pois as elas, as mães, conhecem todos os mistérios do coração das crianças, também não falou nada, estragaria o momento. A criança continuava sorrindo, olhava para o mundo lá fora e não enxergava a fome, a miséria, e tudo o mais que torna feio o mundo real, para ela o mundo não era real, era místico, não que isso fosse fantasioso, nada disso, o mundo das crianças é pura imaginação e ela, a imaginação, é força poderosa e criativa. “Mais imaginação e menos pensamento”, era o que eu pensava e o que criança dizia com o coração e o que todo mundo percebeu.

Recordo que, em um dado momento, passávamos em frente a uma praça quando ele exclamou de repente: – papai! Olha aquela cachoeira linda, a gente pode vir tomar banho aqui? Eu rapidamente olhei para os lados para procurar a cachoeira e nada vi, havia apenas uma fonte antiga, mas eu olhava sem a imaginação do menino, pois a fonte bela e esquecida em meio à praça era a tal cachoeira do pequeno, não pude conter o riso, sorri com o melhor que havia em mim, não de deboche, mas das maravilhas que uma criança pode produzir. É aquela mística desconhecida dos adultos e seu mundo eternamente chato, aborrecido.

Depois, mais a frente, ele olhava as crianças pedindo esmola, carentes, magérrimas de fome, carinho e respeito. Parou, olhou, e disse: – mãe! Olha um menino, mas por que ele está na rua, mãe? Cadê a mãe dele? Ela não disse nada, apenas baixou a cabeça, a maioria estava com ela, os passageiros também pararam e refletiram entristecidos e eu continuava a prestar atenção, não pensava em nada, não queria pensar, queria apenas ter em mim aquele coração que não enxergava as maldades do mundo. Quem sabe, um dia deus me deixe olhar na sua caixa de milagres, haverei de pedir que todos os homens tenham o coração de menino, e não de homens, pois assim não haverá mais crianças nas ruas, todos eles terão mães cuidadosas e ternas, serão felizes e todas as fontes serão cachoeiras.

Tudo imaginação, e não fantasia. Afinal, o que custa sonhar com o que é belo? Não se trata de mascarar a realidade, mas sonhar com o mundo possível cheio de otimismo. Se você, amigo leitor, não sonha com o mundo assim é porque seu coração já não é mais um coração e sim um aparato eletrônico sem vida, mecânico e frio. Deixaste de ser humano, és agora máquina e números, mais nada.

Vai Passar…

21 21UTC Junho 21UTC 2009

“No tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada  da  memória, das nossas novas gerações” (Chico Buarque)

É com o imenso pesar que aviso, aos leitores amigos, que nosso país está por agonizar. Mas calma, meu caro leitor, ele ainda suspira e, lentamente, imprime seus últimos pensamentos no incauto coração do povo brasileiro. Marcado em seu peito está a enorme chaga da ingratidão, daquele que deu tudo e não cobrou nada, mas eis que ainda sorri e como um bom malandro conta anedotas de nossa história recente, pois convenhamos, caros amigos, não temos história, somos apenas uma crônica na imensa narrativa humana.

Gosta de relembrar. É uma característica daqueles que padecem. É novo, não conta quinhentos anos, mas desgraçadamente sente-se velho, entristecido pela juventude, sua filha caçula, herdeira da responsabilidade de continuar a sua história. Quando recorda, chora, olha de relance o mundo lá fora e percebe que a nossa juventude é velha, carente e covarde. Ele esbraveja, tenta um discurso, levanta e ensaia uma posição altiva, mas logo desata a chorar.

Rememora alguns pontos de nossa história, seus olhos se deixam vaguear, encontram o infinito próprio dos deuses, olha ao longe, para o eterno, vê os vinte anos de ditadura, observa Getúlio baixinho e fascista no Palácio do Catete, o imperador Pedro II a cantar as glórias do império, vê Chico Buarque compor Angélica e acompanha com sofrimento a angústia dos jovens mortos nos porões, torturados humilhados. Nesse momento pára, coloca as mãos sobre os olhos e vê pelo seu corpo as chagas de um tempo que não se pode esquecer.

Olha mais além e, surpreendido, vê Cartola cantar Alvorada, imediatamente meu amigo esboça um sorriso, ensaia com as mãos um batuque de bandeiro, seu coração acelera, dá pancada na sua alma, o faz acreditar novamente, a enxergar possibilidades, porém, seu coração volta a ficar sobressaltado. Cachoeiras são construídas em mansões de presidentes, a política neoliberal que se instala e se curva ante ao vício do lucro, o metalúrgico que se tornou presidente e que prometeu  mudar o país, mas não mudou, mudou a sua própria vida e só, mais nada.

Pára exatamente ai, não quer enxergar o futuro, não se sabe se tem medo, ou se tem a firmeza de que haverá novos tempos, apenas tem em si o otimismo cego de um idealista que vê em cada brasileiro um infinito de possibilidades. Então, suas feridas saram, seu coração volta ao ritmo normal e completamente recuperado veste seu terno branco,  coloca seu chapéu coco e empunha sua antiga bengala com o brasão nacional e sai. Dizem que anda por ai, pelas regiões do nosso país a levar a alegria ao povo, e que é fácil reconhecê-lo, pois dizem que canta a eterna música do Chico, “Vai passar, nessa avenida um samba popular…”

O Casal

14 14UTC Junho 14UTC 2009

Curiosa e estranha é a mania dos casais,

De todos os casais, em ter um lugar preferido,

Uma música preferida, um filme predileto,

Uma poesia de interesse comum,

Até mesmo um momento especial e eterno,

Mas nós não.

Não fomos agraciados com

A estranha mania dos casais,

Porque Simplesmente não temos um tempo,

Ou sequer um lugar e nem música que marcaram.

Creio que seja pela razão simples de que

todos os lugares são os lugares

De nosso tempo,

todas as músicas para nós

são revelações do que sentimos,

todos os filmes retratam o drama,

Do nosso coração que é simplesmente todo verso,

poesia de um amor-arquétipo,

cantada pela Deusa Majestosa,

deusa de todos os amores,

a Eternidade.