Não sei ao certo se compreendi a mensagem de Saramago em seu Ensaio sobre a Cegueira, contudo, gostaria de compartilhar, com alguns amigos, a leitura que realizei sobre o filme de Fernando Meireles.
Há algum tempo o escritor português deu uma entrevista à revista Bravo e, categórico, disse uma frase a qual jamais esquecerei: “O homem nunca esteve tão dentro da caverna quanto agora”, e, em recente documentário sobre a Língua Portuguesa, Saramago também se refere aos tempos atuais como um recrudescimento da mentalidade, quando diz que haverá o momento em que nos comunicaremos por grunhidos e não mais pelo nosso sistema, não muito sofisticado, de códigos.
Acredito que o Ensaio sobre a Cegueira trate de algumas das idéias de Saramago em relação ao sistema frágil que é a Humanidade: o mundo, diante de uma nova epidemia, a “cegueira branca”, entra em um colapso destrutivo coletivo em que se fazem presentes as piores abjeções humanas. Mas não sejamos tão apressados, vamos nos ater a alguns elementos fundamentais.
A Humanidade é Cega
O Ensaio de Saramago tornou-se, para mim, um filme essencial, pois mostra que há momentos em que precisamos das maiores privações para poder vivenciar uma espécie de crescimento interno. A maior parte de nós, humanos, só cresce com base no sofrimento. A doutrina hindu fala que através do sofrimento o homem desperta a consciência. A dor, então, torna-se pedra angular para nossa evolução.
Em determinado momento do filme um grupo específico fica cego, eles são postos em isolamento em uma espécie de manicômio, lá ficarão mantidos sob a mais severa vigilância, o que acontece depois não posso contar, pela razão óbvia de que eu não conto o filme, mas no decorrer do longa vemos a criação de laços entre as pessoas desse grupo, de vínculos, elas passam a ressignificar a amizade, potencializam os valores nelas existentes, humanizam-se e a partir desse momento acontece algo maravilhoso, que também não contarei.
Após a contaminação em massa por todas as pessoas do planeta, o sistema social quebra, estilhaça, a luta pela sobrevivência passa a contaminar a alma dos homens, voltamos à condição de animais. Vamos pensar um pouco a respeito.
Estamos vivendo uma Era mais ou menos assim: a Era de Ferro, como dizem algumas tradições. O tempo em que o coração dos homens tornou-se frio, duro e inflexível, em que a humanidade se movimenta pelas cadeias do ódio e da violência. Posso dizer que estamos cegos, tal como na imaginação do escritor, que nossa sociedade está a caminho da grande dissolução, pois os homens esqueceram sua natureza, ou melhor, deixaram de enxergá-la e somente após muitas dificuldades, voltaremos a ver as coisas tais como elas são: com os olhos de uma criança que enxerga a tudo como se fosse uma eterna novidade.
Acredito que, quando Saramago deixou todos cegos, queria evidenciar essa mensagem: de que precisamos de uma série de privações, problemas, obstáculos, para voltar a valorizar aquilo que perdemos em nós: nosso sentido de humanidade.
Gostaria apenas de retificar que quando se fala em cegueira não se trata dos olhos físicos, esses não nos dizem nada, apenas nos enganam com esse mundo de aparências transitórias, estamos falando dos olhos da alma, aqueles que são capazes de ver mais além, o homem precisa então, urgentemente, voltar a enxergar com a alma, com o coração, a ver o mundo como um irmão e cuidar dele, devemos voltar a enxergar em nós os valores eternos e humanos tão esquecidos, ou acabaremos em um mundo tal como o imaginado pelo escritor, cercado das mais horríveis brutalidades, sem um sistema de regras ou leis, mas, esperem, nós já não estamos assim?
Mas tudo tende a incoerência e o mundo pode ainda ficar muito pior. Não se trata de profecia, basta bom senso para ver onde vamos parar com esse nosso egoísmo, esse sistema baseado em um consumo inconseqüente, em que não há mais nada em que possamos usar como referências, em que não há mais heróis, nossos templos são os shoppings, nossos deuses as grandes corporações.
Então, cabe a nós a responsabilidade de moldar esse mundo segundo os princípios de nosso coração, temos de seguir a intuição que brota em nós e que nos faz caminhar em frente, todos juntos, pois somos apenas uma pedra do imenso colar que é a vida, temos uma dívida coletiva para pagar, que sejamos fortes e comecemos a luta pelo novo mundo, um mundo que enxerga para além do si mesmo, e que vê o outro como parte de si, o homem então se tornará humano, demasiado, humano.
Namaskar.