Decerto, que todos os leitores conhecem as aventuras de Alonso Quijano, vulgo Quixote, e seu companheiro Sancho Panza. Contudo, há entremeados nesta história que não é do conhecimento de todos. Por que digo isto? Pela razão óbvia de que, em uma estória, os miúdos sempre ficam de lado, os detalhes, os pormenores. Nunca uma estória é definitivamente uma História. Pois, hoje, vamos contar os estilhaços desta epopéia que ao longo dos anos tem sido o ponto de reflexão de muitos, um mito da saga humana, em busca de um ideal.
Cabe apenas uma observação: “não nos atreveremos a desdizer o que já foi dito, mas relatar aquilo que já foi dito em algum ponto (ou em vários) da história e que, porém, negamos conhecê-la, por medo”. A Cervantes, inclusive foi solicitada uma permissão ante sua memória para a desfiguração de sua história, pois assim acreditamos que não cairá sobre nós a forte e amarga angústia do remorso (contudo acreditamos que a verdadeira história é aquela que nos conta o coração e não os olhos).
Primeiro, queremos dizer que Alonso Quijano não era lunático, nem nunca fora qualquer coisa do tipo. Em verdade os médicos tão acostumados à sua vaidade não souberam reconhecer naquele homem um herói de si mesmo, angustiado em meio a um mundo obnubilado pela desesperança e que tinha em si delírios de um mundo de aventuras em que as pessoas tinham coragem e força para lutarem contra a opressão e a vilania.
Don Quixote era um super-homem, no sentido nitzscheniano de ser. Um homem que apresentava o poder quase divino da potência e que não se deixava levar pelos argumentos do materialismo cego o qual se nega a acreditar na existência de um mundo de aventuras e de pessoas que lutam por seus sonhos. Don Quixote adoeceu por conta da nossa própria psique doente, obscurecida e mergulhada no caminho largo e conflituoso da escuridão.
Já o seu amigo, Sancho, era a própria imagem do homem comum. Apático, passivo, acostumado a uma vida pequena, sempre a temer o próximo passo, desconsiderando o que seria uma nova oportunidade, uma pessoa que tem medo de crescer, de se sentir vivo, e apenas sobrevive, como um verme sob a lama mais viscosa. Somos todos Sancho Pança e em nossas entranhas vivem os monstros mais negros de nosso egoísmo, de nossa doença social.
O Quixote foi o louco que persistiu em sua loucura até ela se tornar Sabedoria. Buscava o amor, não de uma mulher, sua Dulcinéia de Toboso, mas estava em busca da mais terna expressão da beleza, da sensibilidade, do amor por aquilo que existia de mais belo em si mesmo. A História do Quixote não está em suas linhas mais gerais, mas nas mensagens ocultas, no emaranhado de linhas que faz em si um comboio de cordas em tessitura perfeita. Um coração, como disse Fernando Pessoa, um comboio de esperança a ressoar um novo tempo, a fazer vibrar um tempo em que os homens deixarão seus heróis viverem em si, então não seremos mais homens, seremos super-homens e olharemos o firmamento no aguardo no sol, o coração do universo.
Namaskar.
Obs. Daniel, obrigado por relembrar os bons momentos da criação do nosso miniconto. Valeu, meu caro.