Posts de Março, 2009

Quixote Revisited…

28 28UTC Março 28UTC 2009

Decerto, que todos os leitores conhecem as aventuras de Alonso Quijano, vulgo Quixote, e seu companheiro Sancho Panza. Contudo, há entremeados nesta história que não é do conhecimento de todos. Por que digo isto? Pela razão óbvia de que, em uma estória, os miúdos sempre ficam de lado, os detalhes, os pormenores. Nunca uma estória é definitivamente uma História. Pois, hoje, vamos contar os estilhaços desta epopéia que ao longo dos anos tem sido o ponto de reflexão de muitos, um mito da saga humana, em busca de um ideal.

Cabe apenas uma observação: “não nos atreveremos a desdizer o que já foi dito, mas relatar aquilo que já foi dito em algum ponto (ou em vários) da história e que, porém, negamos conhecê-la, por medo”. A Cervantes, inclusive foi solicitada uma permissão ante sua memória para a desfiguração de sua história, pois assim acreditamos que não cairá sobre nós a forte e amarga angústia do remorso (contudo acreditamos que a verdadeira história é aquela que nos conta o coração e não os olhos).

Primeiro, queremos dizer que Alonso Quijano não era lunático, nem nunca fora qualquer coisa do tipo. Em verdade os médicos tão acostumados à sua vaidade não souberam reconhecer naquele homem um herói de si mesmo, angustiado em meio a um mundo obnubilado pela desesperança e que tinha em si delírios de um mundo de aventuras em que as pessoas tinham coragem e força para lutarem contra a opressão e a vilania.

Don Quixote era um super-homem, no sentido nitzscheniano de ser. Um homem que apresentava o poder quase divino da potência e que não se deixava levar pelos argumentos do materialismo cego o qual se nega a acreditar na existência de um mundo de aventuras e de pessoas que lutam por seus sonhos. Don Quixote adoeceu por conta da nossa própria psique doente, obscurecida e mergulhada no caminho largo e conflituoso da escuridão.

Já o seu amigo, Sancho, era a própria imagem do homem comum. Apático, passivo, acostumado a uma vida pequena, sempre a temer o próximo passo, desconsiderando o que seria uma nova oportunidade, uma pessoa que tem medo de crescer, de se sentir vivo, e apenas sobrevive, como um verme sob a lama mais viscosa. Somos todos Sancho Pança e em nossas entranhas vivem os monstros mais negros de nosso egoísmo, de nossa doença social.

O Quixote foi o louco que persistiu em sua loucura até ela se tornar Sabedoria. Buscava o amor, não de uma mulher, sua Dulcinéia de Toboso, mas estava em busca da mais terna expressão da beleza, da sensibilidade, do amor por aquilo que existia de mais belo em si mesmo. A História do Quixote não está em suas linhas mais gerais, mas nas mensagens ocultas, no emaranhado de linhas que faz em si um comboio de cordas em tessitura perfeita. Um coração, como disse Fernando Pessoa, um comboio de esperança a ressoar um novo tempo, a fazer vibrar um tempo em que os homens deixarão seus heróis viverem em si, então não seremos mais homens, seremos super-homens e olharemos o firmamento no aguardo no sol, o coração do universo.

Namaskar.

Obs. Daniel, obrigado por relembrar os bons momentos da criação do nosso miniconto. Valeu, meu caro.

Em busca do Mito Sagrado que há em nós

18 18UTC Março 18UTC 2009

Os coletivos são lugares engraçados, verdadeiras cápsulas de idéias, sejam geniais ou não. Para mim esses automóveis são verdadeiros templos de reflexão em que o tempo parece girar de forma circular a seu favor (ou não, depende da situação) e que não podem ser desperdiçados em vãs divagações, mas em que se deve procurar exercitar a mente para fins de ressignificar aquilo que você aprendeu. Então, hoje, passei a pensar em algo curioso que pode despertar o interesse de alguns: somos todos a encarnação de algum mito.

Vamos começar nossas considerações com um mito ilustrativo e muito interessante, o de Hórus. O Deus Falcão, como era representado, era filho de Osíris, que tinha um irmão invejoso (este é um outro mito, podemos comentar depois) Seth que em uma festa emboscou o irmão e o retalhou em vários pedaços que foram espalhados pelo Universo. Hórus, após ser concebido por sua mãe, Ísis, vai a procura do pai em sua barca celestial. Agora, Vamos em busca da representação deste mito em nossa vida moderna.

Pensemos que Hórus nada mais é do que a representação de todos nós, homens, que em sua barca celeste (seu corpo material), parte em busca das centelhas de Deus dispersas em um universo de inúmeras possibilidades. Mágico, não? Assim também é o mito da Arca de Noé em que ele, Noé, representa o Espírito que navega por quarenta dias (número que na tradição judaica indica a superação) em sua arca (o corpo material) sob o imenso mar do Inconsciente.

Procuremos, agora,  recordar um mito mais próximo a nós em que encarnamos a saga do herói. Geralmente este mito se faz presente em pessoas que se tornam verdadeiros Quixotes e seguem lutando contra os moinhos de vento do materialismo cego. São heróis em um mundo que não corresponde ao seu mundo espiritual e que alguns acham que são loucos. Mas, esses companheiros apenas querem sugerir ao mundo um pouco de idealismo, um ideal de fraternidade, honra, dignidade e amor. Gosto do mito quixotesto, isto por que há muitos Alonsos Quijanos pelo mundo, espalhados, em organizações humanitárias e em atividades de voluntariado, pessoas de uma força além do comum e que todos julgam como loucas.

O Mito do Herói é meu preferido. Imagine alguém que parte de sua casa em busca de aventuras, enfrenta mil inimigos e dificuldades e volta para casa com uma mensagem. Certamente conhecemos pessoas que foram consideradas loucas, largaram tudo para viver uma vida de peripécias, deram de cara com um mundo de problemas, de desafios que somente heróis são capazes de resolver e sempre conseguiam, com inteligência ou perseverança, ter o que desejavam.

Há outros mitos, como o de Narciso, por exemplo, o admirável rapaz que se apaixonou por sua própria imagem e que, diante de um lago em que se via refletido, deixou-se levar pela esplendorosa imagem e se afogou nascendo no local de sua morte uma flor: narciso. Uma flor, nada mais interessante para mostrar a fugacidade da beleza, não?

Em tempos atuais, em que seguimos obcecados pelos apelos visuais, nada mais interessante do que o conceito de Narcisismo: pessoa obsessivamente apaixonada por sua aparência deixando que sua mente seja tomada pelos devaneios da vaidade a ponto de querer ter uma beleza externa aparentemente divina. Sendo que a beleza reside internamente, como bem nos ensinaram os orientais. O que é belo, tal como a flor, brota de um crescimento interno para o externo, este é o movimento que a  flor realiza ao debrochar.

Portanto, que procuremos ler mais os mitos, buscar seus significados internos, pois os mitos não são historinhas infantis de povos primitivos que procuravam uma desculpa para o que desconheciam. Esse conceito cabe mais a nós, ditos pós-modernos, do que aqueles sábios oráculos das escolas de mistérios. Todo mito é uma chave para algo que reside ocultamente no homem, procurem buscar em vocês o mito que há em seus corações, em suas vidas. Então, qual será o seu mito?

“Meu nome é coisa, coisamente” (considerações sobre a poesia de Drummond)

16 16UTC Março 16UTC 2009

EU, ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome… estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)

E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.

Entre tantos conceitos, tantas elucubrações, algumas com certa “insubordinação mental” em que é tratado o conceito de Identidade e sua dissolução no mundo moderno, nada é mais representativo para mim do que esta poesia de Carlos Drummond de Andrade. Mas, o que foi este poeta senão um amante das palavras, um oráculo que costumava dizer de forma significativa aquilo que lhe tocava a alma. Quem lê o poeta mineiro tem a sensação de mergulhar nos mais recônditos anseios da alma humana coletiva; suas angústias, seu desespero, seu negrume.

Seria tão interessante se procurássemos descobrir a nossa Literatura, tão representativa em personagens maravilhosos, escritores que enxergavam mais além, colocavam toda sua vontade nas palavras e que como magos coptas ritualizavam as palavras colocando-as na esfera do atemporal, do simbólico, do mágico, um mysterium profundo.

Quando leio esta poesia é como se voltasse ao meu centro, como se encontrasse aquilo que é essencial em mim perdido em um mundo desespiritualizado em que as pessoas perderam aquilo que fazias delas seres humanos. Como é comum hoje não saber mais quem se é, talvez, tenhamos nos tornados “vasos vazios”, sem flores, sem qualquer utilidade, sem representar a beleza que nos torna essenciais. Perdemos nossas particularidades, nossa essência, transitamos em extremos, sentimo-nos perdidos entre as buzinas estridentes do mundo que se nega a ouvir.

Hoje, parece que gostamos de tratar uns aos outros como se fôssemos um subproduto do sistema. Um objeto abjeto. Negamos nossa importância, tratamos as mulheres como um bombom e, infelizmente, algumas delas mostram-se como tais, reflexo vital de uma sociedade viciada em apelos visuais. Talvez, sejamos coisa, tal como diz o poeta, algo sem forma, sem qualquer ligação com a realidade, mas sim com nossas fantasias pobres e sujas. Porém, homem é como o caracol, enxerga longe quando quer, tem seus olhos a frente da matéria, seria tão bom se voltássemos a acreditar em nós.

Contudo, atualmente somos logotipos a estampar no peito nosso suicídio espiritual.

Namaskar.