O Festival de animação do ano passado (Anima Mundi 2008) valeu a pena por apenas um curta-animação: La Maison en Petits Cubes. Ontem, para minha surpresa (ou não), vi que esse havia ganhado o Oscar de melhor animação do ano. Não posso dizer que fiquei surpreso, a palavra certa talvez fosse emoção. Recordo do dia em que o vi, meu rosto encoberto pelas lágrimas de um sofrimento que é comum a tanta gente: o de saber que tudo na vida passa. E essa é a temática da história. Vou comentar brevemente.
A narrativa começa com um homem e seu cachimbo a ver algumas fotos de sua família, percebe-se que não mora em um lugar muito comum. A água sempre sobe cobrindo as casas e fazendo com que o morador construa sempre um novo cubículo para que possa sobreviver. Há sempre dentro desses cubículos um alçapão que o leva para o andar anterior já submerso.
Certo dia, por descuido, o homem deixa cair seu velho cachimbo na água. Fica então a olhar longamente a vê-lo desaparecer na escuridão do mar, tenta sem sucesso substituí-lo por outro, mas não consegue: nada substituía seu antigo cachimbo. Resolveu então comprar um escafandro para fins de encontrá-lo.
Logo na primeira descida, já como um escafandrista, ele encontra uma cama toda quebrada, já despedaçada pelo tempo, ele recorda então de quando cuidou daquela que seria o grande amor da sua vida. Após esta lembrança ele não se contenta e mergulha mais em seu passado, já não estava mais atrás de seu cachimbo, mas de sua história pessoal. Revê grandes momentos da sua vida: a descoberta do amor, do prazer de ser pai, de quando havia espaço para correr livremente, o casamento da filha.
O filme é uma grande metáfora do homem que precisa mergulhar em seu passado para reencontrar a si mesmo em uma época de tantas felicidades. O maior mal do homem é o esquecimento, já dizia Merlin. Concordo com ele. Não sei se os leitores já pararam um tempo, miraram o horizonte e puseram-se a recordar os momentos mais incríveis da sua história.
Hoje, vendo o Orkut, vi uma opção que ainda não havia reparado: a de ver meus recados desde quando o criei. Quantos recados, de tantos anos, pessoas que nunca mais vi, pessoas as quais namorei, que disse que amava e que nem sei por onde andam, amigos que chamei de irmãos e foram apagados como uma poesia escrita com giz sob a chuva. Não apenas vi estes momentos, vi minha mãe apertar minha mão tantas vezes, vi minha formatura, meu irmão e eu brincando com nosso primeiro cachorro, nossa avó nos jogando pro alto e brigando com a TV.
Eu mergulhava na minha própria história como o homem do filme e percebia quantos cubos já havia criado para mim… Em vinte e sete anos foram tantos os momentos agradáveis que se ajustaram a uma memória tão falha, mas… Acho que a Alma também tem memória e dela não se pode apagar nada. Eu fiquei olhando nossa casa antiga à minha frente, nós pequenos correndo pelas ruas, e eu suado depois de um jogo de futebol…
Havia tanta coisa e meu coração acelerava e me sentia feliz por não ter esquecido aqueles a quem amei. Recordei de todos aqueles que participaram da minha vida de uma forma tão intensa e tão pequena, das viagens com os amigos, de tantas despedidas dolorosas, mas com o coração cheio de esperança e alegria por aqueles que foram em busca de novas aventuras…
Recordei, revivi tudo novamente e hoje eu me sinto uma pessoa eternamente grata por eu lembrar quem fui, o que deixei de ser, para ser quem sou.
Dói mais em saber que ainda haverei de construir tantos cubos e deixar para trás tantas coisas… Você já pensou nisso? Que um dia não terá mais aqueles que estão contigo hoje ao seu lado? Portanto, meus caros, não percam tempo, abracem aqueles que vocês amam com todo o amor, pois um dia eles vão partir e viverão apenas nas suas lembranças mais felizes e ternas de um mundo que aparecerá apenas em seu coração.