Ontem, 23 de janeiro de 2009, assisti ao vídeo acima promovido pela TV escola sobre a exposição realizada no museu de Língua Portuguesa em Sampa a homenagear nosso mais ilustre escritor: Machado de Assis. Maravilhado com a intensa pesquisa que foi realizada e com todas as riquezas de detalhes me vi chocado ao ver várias fotografias a retratar “vários Machados”, isto pela razão de que as alternâncias das cores do escritor fluminense variavam bastante, pois em uma ele era apresentado como negro e em outras como branco. Alguns leitores vão chiar e perguntar o que isto tem a ver, que branco ou negro ele era fantástico. Sim, concordo com vocês, mas qual o discurso por detrás desta mentira?
A verdade é que Machado era mulato, neto de escravos, gago e epilético nascido no Morro do Livramento. Fato curioso é o de terem posto em seu atestado de óbito a natureza caucasiana que não lhe era própria. Mas não era a primeira vez que havia visto aquela representação “fake” do Bruxo do Cosme Velho, pois em vários livros didáticos aparece a figura de Machado “branquinho”. Fico a me questionar a razão destes falsetes, será que a elite brasileira está tentando esconder suas raízes e demonstrar que se incomoda com o fato de ter como seu maior escritor um mulato?

Gostamos de negar nossas origens africanas. Nos atestados de concurso é comum você observar as pessoas colocarem pardo e até branco ao invés de negro, como são. Não sei o motivo já que os negros não apenas são parte de nossa rica miscigenação multi-identitária, mas também são a pedra angular no processo de formação do Brasil. Nossa língua, por exemplo, é repleta de vocábulos originados do Banto e do Yorubá, além de outras línguas africanas, além disso milhares de negros desembarcaram no Brasil (arrancados de seus lares de origem para serem escravizados aqui) e estando nesse país cobriram com suas cores e seu brilho forte nossas origens e hoje são parte fundamental de nossa identidade cultural. Por que negá-las?
Machado apesar de todos os desafios que uma sociedade excludente e preconceituosa se lhe apresentava soube, como nenhum outro em nossa curta história (ou estória?), vencer tais desatinos da sociedade para brilhar como um dos fundadores da ABL (primeiro presidente da instituição) e ser o maior escritor brasileiro de todos os tempos, além de escritor reconhecido, lido e discutido internacionalmente.
É certo também, no dizer dos críticos, que Machado de Assis não deu importância para importantes movimentos sociais como a abolição da escravatura, por exemplo, e que passou longe do nacionalismo. Se for verdade é, para mim, seu admirador, uma triste nota em sua bela biografia. Mas, não estou a discutir isto, enfim.
O que estou a perguntar é a razão de negar o fato de Machado ser negro e brilhante? O que há por detrás deste discurso maldoso e infame que deve ser expurgado de toda mentalidade sã? Para os leitores pode parecer algo simples, mas não é. Não podemos negar quem somos. Não podemos dizer que apenas as pessoas caucasianas são brilhantes e comungar com teorias bizarras próprias de um período bizarro em que o nazismo e o fascismo pregavam a teoria da raça superior. Não podemos deixar mais uma vez uma elite dominante e excludente nos enganar com um discurso que soa próprio da mentalidade hitlerista. Estou a ser radical? Não creio, apenas fico a imaginar os motivos deste despautério.

Fazendo uma digressão Machado me faz a lembrar a história de um grego gago que para vencer seu “problema” declamava poesias com pedras na boca a correr as montanhas da Grécia, reza a lenda que não apenas se viu curado, como também se tornou um dos maiores oradores gregos e a história não nos deixa de apresentar exemplos de pessoas que superaram suas limitações e foram em frente.
Machado de Assis tinha em si todas as dificuldades do mundo, mas fez disto uma oportunidade o que fez dele o maior dentre seus pares, pois conseguiu vencer todas as intempéries para atingir o status de universalidade que será, para sempre, seu. Portanto, meus caros, não podemos negar a história deste grande homem e pintá-la com cores que nos parecem menos incômodas (para alguns). Devemos contá-la e nos orgulhar dela, esquecer este discurso estranho de que somente uma classe dita superior é que pode galgar as escadas da genialidade, todos temos potencialidades de conquistar grandes feitos. A Machado de Assis meus sinceros agradecimentos por fazer de nossa Literatura universal e respeitada em todos os cantos do mundo.