Cabe ao leitor deste blog algumas reflexões sobre as palavras proferidas por um dos maiores lutadores de Artes Marciais dos últimos tempos: Bruce Lee. Ele nos fala sobre a natureza da água, sua particularidade em alterar seu estado de acordo com as situações em que se envolve, e mensagem é bem clara e tem um sentido específico, pragmático: de dizer que devemos ter a natureza da água. Porém vou além desta consideração e farei algumas ponderações acerca do que nos disse o filósofo (pois todo lutador de artes marciais também é filósofo).
SEJA ÁGUA, MEU AMIGO.
Em todos os momentos de nossa vida estamos ajustando nossos comportamentos. Em cada evento social somos convidados a agir de acordo com as regras estabelecidas em sociedade. Por exemplo, a linguagem, podemos dizer que em um ambiente formal, uma entrevista de emprego, ou uma reunião da empresa, é comum ver as pessoas elevando seu grau de monitoramento lingüístico ajustado àquela situação.
Não se pode falar de qualquer maneira, como se estivéssemos a interagir entre amigos ou familiares, a linguagem se ajusta de acordo com o evento, toma a forma da água, que em cada situação assume uma forma que lhe é particular, temos sempre de assumir uma postura flexível ante os desafios da vida, esta é a mensagem do mestre.
Não podemos nos deixar desatinar pelas derrotas, temos de fluir através delas, como se fossem obstáculos menores, pequenos diante da grandeza de todo nosso ser.
REFLEXÕES à PARTE
Há também dois tipos de reflexão que podemos fazer sobre a mensagem: reflexão sobre a água paralítica e a água em seu sentido vivo.
As palavras de Lee fizeram com que relembrasse o conceito de personalidade, que vem de persona, que significa máscara. Somos todos atores, simplesmente colocamos nossas máscaras para podermos atuar neste palco que é o mundo, nos adequarmos às situações, sermos políticos e circular em harmonia em qualquer ambiente social, portanto, somos água. O que nunca pode ser feito é confundir a máscara com o que de fato se é, pois isto gera um perigo a todos nós. Que é a descaracterização da personalidade. Mas, o que somos de fato? Esta é uma pergunta que cada um deve responder por si.
Atualmente não somos mais que caricaturas infantis do que retratos fiéis de homens. Neste mundo desmitologizado, dessacralizado em vivenciamos a perda com o Sagrado, com o que nos conectava com o divino, e com o que realmente somos em essência. Deixamos de fluir como água em direção ao que nos era Sagrado. Este encontro despertava a Hirofania, o sentimento de estar em Deus, de sermos Unos com Ele. Hoje estamos a viver em meio a um vazio metafísico que pode ser mortal ao homem. Não somos mais do que águas paradas, paralíticas, e sujas.
Para que possamos voltar ao estado de água viva, aquela que busca o oceano primordial do conhecimento, que flui como diz Lee, que golpeia os obstáculos, devemos nos reconectar com o Sagrado, estabelecer esta ponte entre o mundano e o transcendente, correr pelos obstáculos sem nos dar conta dos ferimentos e das dores, temos que ir em busca dessa aventura interior, que sejamos água no sentido de vitalidade que ela tem, e não no sentido passivo e doentio, que possamos fluir e ir calmamente ao encontro de nós mesmos.