Quem conta é Mircea Eliade que, em algum lugar do mundo, existia uma tribo chamada Achilpas e que este povo tinha uma curiosa maneira de ver o mundo, o cosmo, a organização do espaço e do tempo. Carregavam consigo uma espécie de poste sagrado, para onde iam seguravam o tal poste e na direção em que ele indicasse, nas disposições de suas inclinações, fincavam sua morada.
Este poste era o centro do mundo, o axis mundi, e o local onde ele era fincado seria considerado o centro do universo, o umbigo do mundo, era o espaço sagrado, onde se manifestava a herofania, o poder divino em toda sua potência, era o “link” deles com o mundo celeste.
Em algum momento da história – que não se sabe quando – o poste se quebrou, a tribo ficou em desespero pleno, não sabiam para onde se direcionar, estavam perdidos no mundo, vaguearam por um tempo, e se deixaram levar pela morte, sentaram-se em algum lugar e morreram.
Esta história inicial nos faz pensar que para o homem das tradições antigas o espaço jamais seria homogêneo, ele era constituído de uma parte plenamente irreal e uma real, o espaço considerado verdadeiro para estes povos era onde eles conseguiam ver a manifestação do sagrado, em que poderiam estabelecer relações com o mundo espiritual.
Quando a tribo Achilpa fincava seu poste no solo aquele espaço deixava de ser qualquer lugar, agora era um espaço sagrado, de comunicação com seus deuses, aquele espaço direcionava suas ações seu entendimento do mundo e quando perderam isto a vida deixou de apresentar sentido, pois se não se sabe para onde vai a vida deixa de apresentar qualquer sentido.
Estas manifestações ainda se fazem presentes em nossas tradições nas grandes Catedrais, ou templos religiosos das diversas instituições.
Eu fiquei a pensar naqueles refúgios, de vez em quando eu vou a um desses lugares, não sou católico, nem de qualquer tipo de congregação religiosa, mas gosto de estar presente em alguns desses lugares às vezes, quando estão completamente vazios.
Tem uma basílica na cidade onde moro, é tão bom entrar naquele lugar, sentir as orações de milhares de pessoas ecoarem por aquelas paredes, olhar para cima, as aberturas em formato de arco, o formato de barca celeste, me sinto dentro de uma arca, no centro do mundo, lugar em que perco minha individualidade e transcendo e assim me comunico com o que há de divino: o sagrado se manifesta.
Quando os portugueses cá chegaram erigiram no local uma cruz e rezaram uma missa, para aquelas pessoas aquele era o comportamento de se tornar sagrado uma terra profana, infelizmente muitas pessoas pagaram com a vida (os povos indígenas) por não aceitarem os princípios ditos “divinos” da igreja católica. Contudo não percamos o foco de nossa discussão.
A teoria do centro é curiosa, há vários lugares do mundo que se manifestam como o centro do mundo, o Monte Meru na Índia, a cidade da Palestina, entre outros diversos lugares procuramos algo como o centro para organizarmos o espaço ao nosso redor, contudo, pensei em estender estas reflexões, e refletir sobre a teoria do centro para dentro de nós, seres humanos.
Estamos vivendo em um sistema capitalista, de um capital especulativo, um sistema que se baseia no movimento alterado, acelerado, desorganizado e doente. Por causa desse movimento alterado e insano é comum vermos as pessoas fora do seu centro, aquele espaço sagrado. O espaço de encontro com o divino está cada vez mais distante, o descrédito nas instituições religiosas é crescente, e o número de seitas estranhas é assustador.
O homem já não consegue encontrar o seu espaço sagrado em meio ao mundo profano, as religiões não respondem mais aos anseios espirituais das pessoas que cada vez mais estão angustiadas, inseguras, porque perderam o centro dentro de si mesmas, perderam a ligação com o sagrado, com o que havia de misterioso em seus coração e alma. Estas pessoas não vão aos templos – pelo menos em sua maioria – para comunicar-se com o sagrado, mas para pedir sempre algo mais, estabelecer seu comércio com Deus, estender o seu mundo consumista até para os laços espirituais.
Contudo o retorno ao centro é algo simples e você nem sempre precisa de um templo para isso. Basta observar bem a beleza essencial de cada coisa, basta fechar os olhos, sentar embaixo de uma árvore, escutar o assovio do vento, os conselhos do tempo, o farfalhar da folhas, basta observar que tudo na natureza tem consciência, em maior ou menor nível, que há um movimento de equilíbrio na vida, um ritmo lento, gradual, efetivo, seu coração vai se acalmando, pára de bater acelerado, pára de querer tudo, e lentamente ele ressoa, vibra, jorra vida para todo o corpo, em seu ritmo adequado em uma só voz com o universo.
Mas lembre-se da regra: no mundo moderno é muito difícil estar no centro, é complicado estar em equilíbrio, e procurem lembrar que estar em equilíbrio não é estar passivo diante da vida, mas assumir uma postura ativa diante das situações cotidianas. Contudo, quando você estiver angustiado lembre-se de olhar por um instante aquilo que para ti é bonito e simples, e que faz seu coração vibrar e pronto, você estará de volta ao centro, em ligação com o divino que há em você.
Mysterium Tremendus… Isto sim é magia, e não flutuar em cima de uma colher. Namaskar.
24 24UTC Novembro 24UTC 2008 às 4:19 am |
Sabe, as vezes eu penso que só vamos mesmo valorizar o que é grátis, como a natureza e o espirito, quando não existir mais, sabe, parece óbvio, mas será que todos nós paramos para pelo menos ver o por do Sol? para sentir o vento e não simplesmente deixar ele passar pela gente? admirar a Lua, nossa, a Lua então, essa tenho um carinho todo especial, será que admiramos?…e o espirito é o que temos de mais lindo, pois é o que nos une na luz, obrigado mais uma vez pelo texto maravilho meu caro amigo…
até logo…ae~S!!!