Posts de Novembro, 2008

A Teoria do Centro

24 24UTC Novembro 24UTC 2008

Quem conta é Mircea Eliade que, em algum lugar do mundo, existia uma tribo chamada Achilpas e que este povo tinha uma curiosa maneira de ver o mundo, o cosmo, a organização do espaço e do tempo. Carregavam consigo uma espécie de poste sagrado, para onde iam seguravam o tal poste e na direção em que ele indicasse, nas disposições de suas inclinações, fincavam sua morada.

Este poste era o centro do mundo, o axis mundi, e o local onde ele era fincado seria considerado o centro do universo, o umbigo do mundo, era o espaço sagrado, onde se manifestava a herofania, o poder divino em toda sua potência, era o “link” deles com o mundo celeste.

Em algum momento da história – que não se sabe quando – o poste se quebrou, a tribo ficou em desespero pleno, não sabiam para onde se direcionar, estavam perdidos no mundo, vaguearam por um tempo, e se deixaram levar pela morte, sentaram-se em algum lugar e morreram.

Esta história inicial nos faz pensar que para o homem das tradições antigas o espaço jamais seria homogêneo, ele era constituído de uma parte plenamente irreal e uma real, o espaço considerado verdadeiro para estes povos era onde eles conseguiam ver a manifestação do sagrado, em que poderiam estabelecer relações com o mundo espiritual.

Quando a tribo Achilpa fincava seu poste no solo aquele espaço deixava de ser qualquer lugar, agora era um espaço sagrado, de comunicação com seus deuses, aquele espaço direcionava suas ações seu entendimento do mundo e quando perderam isto a vida deixou de apresentar sentido, pois se não se sabe para onde vai a vida deixa de apresentar qualquer sentido.

Estas manifestações ainda se fazem presentes em nossas tradições nas grandes Catedrais, ou templos religiosos das diversas instituições.

Eu fiquei a pensar naqueles refúgios, de vez em quando eu vou a um desses lugares, não sou católico, nem de qualquer tipo de congregação religiosa, mas gosto de estar presente em alguns desses lugares às vezes, quando estão completamente vazios.

Tem uma basílica na cidade onde moro, é tão bom entrar naquele lugar, sentir as orações de milhares de pessoas ecoarem por aquelas paredes, olhar para cima, as aberturas em formato de arco, o formato de barca celeste, me sinto dentro de uma arca, no centro do mundo, lugar em que perco minha individualidade e transcendo e assim me comunico com o que há de divino: o sagrado se manifesta.

Quando os portugueses cá chegaram erigiram no local uma cruz e rezaram uma missa, para aquelas pessoas aquele era o comportamento de se tornar sagrado uma terra profana, infelizmente muitas pessoas pagaram com a vida (os povos indígenas) por não aceitarem os princípios ditos “divinos” da igreja católica. Contudo não percamos o foco de nossa discussão.

A teoria do centro é curiosa, há vários lugares do mundo que se manifestam como o centro do mundo, o Monte Meru na Índia, a cidade da Palestina, entre outros diversos lugares procuramos algo como o centro para organizarmos o espaço ao nosso redor, contudo, pensei em estender estas reflexões, e refletir sobre a teoria do centro para dentro de nós, seres humanos.

Estamos vivendo em um sistema capitalista, de um capital especulativo, um sistema que se baseia no movimento alterado, acelerado, desorganizado e doente. Por causa desse movimento alterado e insano é comum vermos as pessoas fora do seu centro, aquele espaço sagrado. O espaço de encontro com o divino está cada vez mais distante, o descrédito nas instituições religiosas é crescente, e o número de seitas estranhas é assustador.

O homem já não consegue encontrar o seu espaço sagrado em meio ao mundo profano, as religiões não respondem mais aos anseios espirituais das pessoas que cada vez mais estão angustiadas, inseguras, porque perderam o centro dentro de si mesmas, perderam a ligação com o sagrado, com o que havia de misterioso em seus coração e alma. Estas pessoas não vão aos templos – pelo menos em sua maioria – para comunicar-se com o sagrado, mas para pedir sempre algo mais, estabelecer seu comércio com Deus, estender o seu mundo consumista até para os laços espirituais.

Contudo o retorno ao centro é algo simples e você nem sempre precisa de um templo para isso. Basta observar bem a beleza essencial de cada coisa, basta fechar os olhos, sentar embaixo de uma árvore, escutar o assovio do vento, os conselhos do tempo, o farfalhar da folhas, basta observar que tudo na natureza tem consciência, em maior ou menor nível, que há um movimento de equilíbrio na vida, um ritmo lento, gradual, efetivo, seu coração vai se acalmando, pára de bater acelerado, pára de querer tudo, e lentamente ele ressoa, vibra, jorra vida para todo o corpo, em seu ritmo adequado em uma só voz com o universo.

Mas lembre-se da regra: no mundo moderno é muito difícil estar no centro, é complicado estar em equilíbrio, e procurem lembrar que estar em equilíbrio não é estar passivo diante da vida, mas assumir uma postura ativa diante das situações cotidianas. Contudo, quando você estiver angustiado lembre-se de olhar por um instante aquilo que para ti é bonito e simples, e que faz seu coração vibrar e pronto, você estará de volta ao centro, em ligação com o divino que há em você.

Mysterium Tremendus… Isto sim é magia, e não flutuar em cima de uma colher. Namaskar.

É sempre bom pensar que um copo vazio está cheio de ar

21 21UTC Novembro 21UTC 2008

A música de Chico Buarque copo vazio é especial para mim. Com tão pouco (ou muito) Chico é capaz de embriagar as nossas mentes e nossos sentimentos com a filosofia simples do dia-a-dia. Fiquei com a música impressa na mente, a lembrança dos rostos prenhes daqueles ares vazios, sem expressão, das faces tracejadas pelo sombrio destino que suas vidas são, vidas demasiadamente infelizes que buscam o desespero para curar a dor, de repente me senti triste, uma metade vazia, uma metade tristeza outra alegria, parafraseando a música, mas recordei a verdade inteira: o todo poderoso amor.

Essa realmente é uma música que faz a gente parar no tempo, como muitas do Chico, mas esta é especial, tem esta frase inicial, do corpo estar preenchido de ar, de que não existe vazio, que tudo ocupa seu devido lugar no espaço, que as peças não estão soltas, mas entrelaçadas por um laço misterioso. A vida não deixa nada suspenso, tudo está devidamente intrincado, não como uma engrenagem, não precisamos de mais uma visão mecanicista da vida, é mais complexo, pois as máquinas são sempre previsíveis, mas e nós? Somos um mistério, sempre mudamos as peças do jogo, mas nem por isso as coisas deixam de ter sentido. Caramba! Mistério bonito que é a vida. Namaskar.

Copo Vazio (Chico Buarque)

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.

É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.

Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

Porque o mundo precisa de uma dose de lirismo

6 06UTC Novembro 06UTC 2008

Outro dia escrevi uma poesia sentimentalóide que foi classificada pelos meus críticos mais ácidos como uma letra de pagode do Alexandre Pires, tal foi minha vergonha que retirei o artefato do blog sob pena de ter muitos comentários contrários a temática daquela poesia. Pois, depois fiquei a refletir, afinal este blog não é um espaço de textos experimentais, e que estão aqui para sofrerem qualquer processo de crítica? Além disso, nunca deixei de aceitar um comentário, seja ele maldoso ou um elogio simples.

            Comecei a ficar angustiado com isso, será que estava me tornando um vaidoso afetado? Daqueles que não suportam ouvir uma crítica, que acreditam ser o suprassumo literário com as porcarias que escreve? Depois pensei que não, que havia ficado envergonhado de expor meus sentimentos daquela maneira, recordei o Pessoa, a dizer que tudo do amor era ridículo, e não é que ele tem razão. Mas eu prefiro ser o ridículo amante romântico a um frustrado que só ama aquele cachorro chamado Sultan (ps. Era o nome do cachorro de Rousseau).

            Mas sabe, vou confessar, a poesia estava realmente “canalha” sabe, sem aquela dose de lirismo necessário, sem a beleza sutil, de melodia simples, de cadência e ritmo suaves, mas não, era uma poesia pesada, estranha, pensei haver perdido a inspiração, mas depois pensei melhor e cheguei a conclusão de que nunca tive esse sopro das musas para escrever coisas belíssimas, não me foi agraciado o dom da escrita, mal tracejo estas linhas e já me incomodo profundamente com meu pedantismo, com minha falta de clareza, eu poderia expor as coisas de forma tão simples, mas insisto nessa dosagem estranha da pomposidade.

            Falta o lirismo, insisto, falta aquele sentimento capaz de enxergar numa flor a razão da existência, falta sentir o mundo, pensar menos, esquecer de tudo que li, esvaziar-se, para descobrir o sentido de tudo, o dever de descobrir os sentimentos mais elaborados e belos dentro de si, que foram comprimidos pela razão, que se deixaram escravizar pelas idéias, mas como livrar os sentimentos dos grilhões do racionalismo? Resolvi não escrever mais poesias, não enquanto estiver agrilhoado a sentimentos racionais, infelizmente não vou poder escrever a poesia alegre para uma pequenina, mas é por um tempo, até redescobrir meu coração.

            Sabe-se lá onde se encontra esta coisa, talvez contente em algum lugar a jogar poker com Rousseau, prometi jogá-lo fora, mas sabe, quando você pensa melhor, sabe que não pode viver sem aquele impulso latente que fica tamborilando dentro de ti, que pulsa ao ver aquele sorriso iluminado, mas será que ele vai querer voltar pra mim? É um coração sem vaidade, pois todo coração é orgulhoso, mas nunca vaidoso, mas ele certamente está triste comigo, por eu nunca dar uma chance nova a ele, mas agora preciso reencontrá-lo, contar a ele que agora é diferente, que existe uma possibilidade se sermos felizes.

            Ontem escrevi uma carta a ele, para meu espanto um querubim respondeu, com os seguintes dizeres: “Seu coração agora é cada parte do universo, partiu-se em milhares de pontinhos de luz que agora vagueiam por todos os cantos do mundo a levar alento a todos que estão desatinados, seu coração agora não é mais seu, ele é o próprio universo, pois está agora em todos os corações do mundo”

            E para meu espanto e assombro descobri que agora havia dentro de mim todos os corações que existem, suspirei um suspiro derradeiro, e demasiadamente feliz fui dormir com o sentimento de ter em mim todos os sentimentos do mundo.

Namaskar.