Posts de Outubro, 2008

A ESTRANHA FILOSOFIA DOS PONTOS

23 23UTC Outubro 23UTC 2008

 

 

Ao conversar por esses dias com uma amiga de pouco tempo chegamos à insólita conclusão de que os seres humanos – seres estranhos que evoluíram devido a um polegar opositor – se parecem com os sinais gráficos que determinam o ritmo dos textos que escrevemos todos os dias, existem por ventura alguns mais conhecidos, e explicitaremos nossa filosofia em pontuações simples, nada de muitas delongas, outrora fomos mais complexos, mas chegamos a um nível de sabedoria tal que tivemos a impressão de que somos fundadores de uma nova forma de pensamento: a maiêutica nonsense.

Sabemos que nós nos comportamos de determinadas formas-padrão em nossa sociedade. Por exemplo, temos pessoas que se comportam como as reticências, nunca sabemos o que elas querem dizer, fica aquele suspense no ar, geralmente essas pessoas se definem como um enigma, um clichê já cristalizado no inconsciente coletivo das pessoas, ninguém nunca sabe o que é, o que já é um começo, já que se definir é sempre cair em alguma mentira escabrosa, mas é chato você perguntar “me fale um pouco de ti” e a pessoa responder “sou um enigma”, mas também a pergunta define muito bem o tipo de reposta que você vai ter.

Esse tipo de pessoa é sempre um mistério curioso e devemos ter cuidado com o que dizer sob a pena de não termos resposta alguma, apenas um vazio.

Vamos continuar nossas elucubrações. Já temos os tipos de pessoas que são reticências, mas há aquelas que são um ponto e vírgula, primeiro que você nunca sabe como encaixar este tipo de pessoa na sua vida, o emprego da pessoa ponto e vírgula é sempre complicado, você sempre tenta usar o sinal (opa, a pessoa), mas sempre paira a dúvida, será que vai dar certo? Nunca se sabe, há pessoas na vida da gente que são exatamente assim, e ficamos nos perguntando se o fulano tem alguma função naquele cotidiano que a gente vive, nunca sabemos, sempre temos dúvidas.

Continuando estas indagações esquipáticas, nos deparamos com as pessoas que determinam um ponto final em nossas vidas, elas são responsáveis por fechar o ciclo, terminar a nossa história para que comecemos a contar uma nova, de outro jeito, estilo, entre outras definições que poderíamos ter. Geralmente este tipo de pessoa aparece do nada, conta algo para você, ficas chocado e tomas uma determinada decisão que muda sua vida e que dá um ponto final em tudo que havia no seu comportamento passado, não se trata exatamente de psicólogos, ou analistas, muito menos do seu psiquiatra (que é o que geralmente menos sabe da alma humana, já que os referidos perderam a sua há tempos).

Gosto das pessoas do tipo ponto final, elas vêm e detonam com tudo, não fazem isso porque sejam más, mas porque são misericordiosas e dizem que a gente deve seguir em frente que nossa vida é uma mentira e que já está na hora de você pôr um ponto final nisso e tentar outra coisa, existem tantas possibilidades quanto estrelas no céu e pô, você fica aí tentando namorar aquele cara chato que não te dá a mínima bola e que se acha a última coca-cola do deserto, vamos parar com isso, nada de ser a vírgula da história, opa, vamos a última de nossas personalidades.

A pessoa vírgula está em todo lugar, é fácil usar a vírgula, tem gente que gosta só dela, quase não usa os outros pontos, acha bobagem ficar explicando as coisas, como as pessoas dois pontos, que adoram explicações, a vírgula geralmente é mal empregada, e inclusive por este que vos escreve, mas o que quero dizer é que ela se apresenta em todos os lugares do texto, é uma figura requisitada, importante, dita o ritmo das coisas, às vezes passa uma impressão de fácil, basta usar a vírgula e pronto, está resolvido, o que considero uma maldade para com aquela que somente nos ajuda, a vírgula não é fácil ela é um tipo de pessoa acessível, está sempre sorrindo, pronta para ajudar, não vamos dizer que é a boazinha da história, ela é uma pessoa legal e isso não significa que ela esteja te dando mole Mané.

Eu adoro essas pessoas todas, elas fazem parte da minha vida, os leitores devem estar a se perguntar o que este autor estranho é, ou seja, que tipo de ponto ele seja, bem eu pensei bastante, eu acho que sou um parêntese, eu explico quando é realmente necessário, se não for assim não tem porque me chamar pra nada, enfim. Eu e minha amiga ficamos discutindo essas bobagens que de filosofia nada tem, e terminamos a noite tomando um Ovomaltine com os amigos em alguma beira de estrada no meio da cidade, é sempre tão bom pensar essas bobagens com os amigos.

Namaskar.

A Despedida

16 16UTC Outubro 16UTC 2008

Estive o dia todo em casa hoje, dia do professor, estou de folga, mês de outubro, círio de Nazaré. Olhei pela janela, o mundo parecia tão diferente, não entendia o motivo, ultimamente estava entediado com tudo que estava acontecendo, apesar de que a vida agora está se tornando uma grande aventura, pois é o momento de se assumir as responsabilidades, de estar sozinho, de compreender de uma vez por todas que a vida é mera ilusão.

Fui dar uma volta, um passeio por onde morei por mais de 26 anos, fiquei parado no meio da rua, em frente à casa que morei por tantos anos, dei olha bela olhada em volta, como tudo mudou, costumávamos jogar futebol em uma sede esportiva que agora era um prédio enorme, éramos um grupo numeroso, onde será que estão todas aquelas pessoas? Muitos casaram, tornaram-se pessoas importantes no que fazem, outros levam uma vida comum.

Um pouco antes, olhei a casa do meu amigo que era o gordinho da turma, era sempre o meu irmão, ele e eu a escutar Legião Urbana em casa, discutir o rock, e eu vestido com aquelas camisas de banda, Radiohead, e a gente proseava e levava a vida tão pouco a sério, sentávamos à porta de casa e tocávamos violão, cantávamos até que a mãe chamava para dentro, eu olhava todo aquele passado, engraçado, há aquela frase que diz “a única coisa permanente na vida é o estado de mudança”.

Quanto tempo passei ali? Meu primeiro namoro, primeiro beijo, a depressão, a tristeza sem fim, a angústia de não saber se voltaria depois de uma crise, o bater na mesa e dizer que ficaria bom, que mudaria meu destino, que seria feliz, passei no vestibular, me formei, tive meu primeiro cachorro filósofo, o bob, que se encontra enterrado lá, não havia outro lugar para ele que não fosse ali, meu grande amigo, ali tive meus momentos de suprema felicidade e tristeza e eu olhava e via tudo como se fosse a primeira vez.

Foi ali que ganhei um jabuti chamado Divina, que depois de um tempo se foi, foi ali que ganhei mais duas irmãs, que hoje têm filhos maravilhosos. Sinto que aquela nostalgia toda servia pra me dizer uma coisa: o tempo agora é outro, um novo ciclo começa. Eu sorri, era verdade, o meu mundo estava mudando, tudo agora era diferente, mas não posso negar que tive um passado maravilhoso naquele lugar, mesmo com toda tristeza que lá também vivi, no final tudo dá certo, mesmo que aparentemente tudo esteja errado.

Voltei-me para a casa, lembranças vieram, tristeza, era a hora de dizer adeus e me preparar para uma nova vida, tão diferente daquilo que há 5 anos atrás todos nós imaginávamos, mas viver é estar imersos nas surpresas do destino, não existe fórmula para viver e você deve estar sempre preparado para mudanças eventuais. Fui, finalmente, com a alegria e a certeza de que em um tempo alternativo qualquer nós tornados crianças ainda estamos ali, brincando, apostando corrida e empinando pipas, em algum tempo paralelo, pois a felicidade quando é verdadeira nunca morre.

Namaskar.

Ao Mestre com Carinho,

15 15UTC Outubro 15UTC 2008

Hoje, infelizmente, às 5h da manhã, faleceu um dos grandes professores de Língua Portuguesa que tive a oportunidade de conhecer: Professor Ms. Sérgio Sapucayh. Certamente é do desconhecimento da maioria dos leitores do blog a pessoa do professor Sérgio. O tive como mestre por três anos consecutivos, curioso é que ele fora meu professor antes de eu entrar no curso de Letras, já explico.

Há tempos não vejo minha amiga Suzana. Ela, naquele ano de 2001, acredito, me convidara para ir  a uma aula de Leitura e Produção de Texto na Universidade da Amazônia, segundo a mágica Suzana (por onde você anda Su?) o professor que ministrava a disciplina não só era um conhecedor exímio da MPB, mas um dos maiores conhecedores da língua que ela havia conhecido.

Eu, tomado pela curiosidade fui até a Universidade e assisti uma de suas aulas. Foi então que tive a certeza absoluta que queria cursar Letras, me tornar professor. Saí da Universidade com uma fé cega de me tornar um grande literato, um grande professor, como aquele homem. O Curioso é que naquela aula também fiquei por conhecer aquele que seria meu grande ídolo: Chico Buarque de Holanda.

O Prof. Sérgio colocou a música Meu Guri para que escutássemos e eu me deixei levar por aquele samba triste e melancólico, aquela poesia em prosa de uma vida maltratada do garoto da favela. Ele comentava como ninguém, era um grande admirador do Chico. O professor Sérgio era carioca, daqueles malandros que conhecem cada esperteza da língua, cada caminho da Sintaxe, e a mágica da Morfologia, a formação das palavras.

Recordo que no primeiro ano de curso, eu era péssimo em escrever qualquer coisa, simplesmente não conseguia nem justapor as palavras em uma seqüência lógica discursiva, tirava apenas notas vermelhas, não conseguia escrever uma linha, ficava mortificado com meu rendimento, eu queria ser um grande escritor, queria escrever coisas lindas e cantar o mundo com aquele olhar que só poeta tem, ainda hoje eu persisto neste ideal, um dia quem sabe, mas por enquanto não.

O Professor Sérgio lia, mandava reescrever, mas eu não conseguia. Então, quando fiz minha última prova, que era sobre O Poder das Palavras, redigi com toda a inspiração que poderia ter naquela época, eu escrevia imaginando a figura do professor Sérgio a ler minhas linhas, aquela expressão de mestre exigente, conhecedor exímio das obras de Lima Barreto e grande admirador de Machado.

No dia em que fui pegar o resultado ele estava na sala dos professores, quieto, corrigindo as provas, ele me chamou, eu tímido como sempre fora fui, me deixei levar novamente, perguntei a ele sobre minha prova e ele me disse, nunca vou esquecer “você me surpreendeu, melhorou bastante” e mostrou minha nota: nove. Nunca vou esquecer a felicidade que tive, naquele momento senti que poderia evoluir, que bastava prática, que não seria certamente um escritor brilhante, mas saberia colocar meus sentimentos para o mundo.

Fiquei imensamente feliz. Houve um ano também que eu precisava passar e não sabia nada de Língua Portuguesa, absolutamente, e quando o professor Sérgio corrigiu a minha prova, eu percebi sua expressão de desânimo, eu havia tirado três e precisava de três e meio para passar, havia tido um ano terrível, doente demais, não sei como consegui me formar, e ele olhou, pensou e deu meio ponto para que continuasse, não foi paternalismo, naquele momento eu senti que acreditava em mim.

Ele sabia que eu não havia desistido da minha vida, quer dizer, não sei exatamente, mas eu acho que ele sabia de tudo que havia acontecido comigo. Fiquei imensamente grato, me formei, saí da UNAMA e tempos depois soube que ele estava com câncer, fui até a universidade, peguei o telefone dele, mas nunca liguei, talvez por receio de incomodar, excesso de timidez, queria pensar que quando fosse a até a universidade ele estaria lá, mas não estará mais…

Professor Sérgio, meus agradecimentos por tudo meu grande mestre, todos os que foram seus alunos sentirão muito sua falta e temos certeza de que serás imortal em nossas vidas, em nossa memória poética. Muito obrigado, um dia nos encontraremos.