Queria hoje poder percorrer um caminho sem fim, mas um caminho onde existe volta, em que poderíamos acessar os descaminhos do Tempo, que sempre está em uma partida de xadrez com a Fortuna. Ela e seu leme e ele com seu instinto devorador. Devora seus filhos, pois teme que eles se transformem em deuses. Queria poder brincar com o Tempo, jogar as lembranças de um lado a outro, colocá-las de pernas pro ar e sorrir por ver que viver é relembrar.
Ah, como tenho saudades da minha casa antiga. O leitor já visitou sua casa antiga depois de ter saído de lá? És invadido pela saudade dos tempos que não voltam, do que está morto e que vive apenas em seu coração onde tudo é eterno. Recordo dos tempos em que corria de triciclo pelas calçadas daquela rua que faz parte de mim, a mangueira ao lado, os amigos que hoje já não reconheço mais o rosto já desgastado e transmutado por ele, o Tempo.
Vico, filósofo napolitano, costumava dizer que o homem dava as coisas características que lhes são próprias, um exemplo, um imã que se deixa atrair pelo ferro, é como se estivesse enamorado deste. Sigo pelo caminho inverso, gosto mesmo é de humanizar os deuses, de pensar que o Tempo é alguém com relógio em cada parte do corpo e que possui uma ampulheta ao seu lado, à esquerda um caderno pequenino, em que escreve a história de todos, em letras que mais parecem partículas.
É um Deus curioso, escreve sobre o tempo de cada um e o seu mesmo, pois até os deuses têm seu tempo, então ele olha de soslaio, observa que na história da humanidade há tanta tristeza, logo escorre, quente, pelos seus olhos cinzentos uma lágrima brilhante que percorre o espaço até se transformar em estrela…
E a estrela que antes era lágrima vira luz, percorre o universo, os homens tolos que são apontam para elas que apenas respondem com aquele canhão de luz, aquele sorriso que encaminha o homem em direção a algo que desconhece, mas que sabe que é o certo. O Tempo sorri e de sua tristeza nasce a alegria dos homens que costumam condená-lo porque querem ser eternos, não sabem que a eternidade é uma maldição e que tudo tem seu tempo certo. Nós, homens, somos apenas barro organizado que se desfaz, os nós começam a ficar lacerados, desgastados e então se rompem, a vida deixa de existir, o homem vira pó e mais nada.
É engraçado ver os homens com a mania estranha de eternidade, quantos prédios gigantes, pirâmides, e obras que atravessam os séculos para um dia virar pó, se soubessem que bastava apenas um pouco de Amor nessa história toda para se eternizarem. Mas, e onde está o Amor nessa história? Deixemo-lo para depois, estas linhas são breves e a angústia do Tempo é eterna.
Sinto que a vida é uma ilusão, uma história contada por um deus aos seus filhos. Fernando Pessoa disse uma vez que se existirem deuses ou não, deles somos escravos. Será que um dia poderá o homem ser Deus? Eu não sei, não quero saber, apenas quero sentir e viver, sem me preocupar com o Tempo. A vida apenas precisa ter significado para ter sentido, se eu viver um segundo com um significado em meu coração, acho que a vida terá valido a pena. O Tempo dirá, e eu estarei esperando ele falar comigo.