Fernando Pessoa era uma personagem esquisita, daquelas que a gente não encontra em cada esquina ou no pátio de casa. Estou dizendo isto porque estou a reler sua obra, reler sim, afinal, nunca lemos de fato um grande clássico, somente podemos dizer que relemos. Alguém me disse isso e hoje, ao observar bem as leituras que faço, considero como uma verdade universal, tal como uma frase no presente do indicativo.
Pessoa considerava-se um neurastênico-histérico. Escrevera certa vez a dois psiquiatras franceses a implorar que estes enviassem, urgentemente, seus catálogos completos, pois necessitava saber tudo sobre magnetismo pessoal a fim de que pudesse injetar em sua personalidade frágil uma vontade de ação, pois acreditava que a cultura magnética era capaz de curar a alma sem “esmagar a emoção, nem prejudicar a inteligência”.
Fernando não conseguia tomar decisões em sua vida, e sua mente era de tal forma acelerada que não conseguia concentrar-se em uma única forma de pensamento, sua psique era um turbilhão de personas, uma porção de Daimons interiores que conversaram com seu Universo particular e faziam com que entrasse em verdadeiro estado de pânico, assim escreve em suas cartas “do ponto de vista psiquiátrico sou um hístero-neurastênico, mas felizmente, minha neuropsicose é bastante fraca; o elemento neurastênico domina o elemento histérico, e isto ocorre para que eu não tenha traços histéricos exteriores”
Havia de ter mesmo alma confusa este tal Pessoa, pois como poderia existir em espécie humana mais de cinco indivíduos completamente diferentes, caracterizando assim um suposto devaneio psicológico ou dissociação da alma. Cada Persona possui sua história individual, se conhecem, um é mestre do outro, mas, como que um são dois? E quando dois são infinitos em um? É metafísica demais.
Seus heterônimos são mais estranhos que o próprio criador, um era guardador de rebanhos, morreu muito cedo, havia de ter saúde frágil, morrera de tuberculose e não teve qualquer educação, mas era mestre de todos os outros. Ironia, ou verdade, pois vivemos num mundo em que grandes intelectuais são piadas e os verdadeiros filósofos são homens simples de sabedoria profunda e pragmática? O nome deste era Caeiro, sim, aquele mesmo das questões do vestibular, que adorava guardar rebanhos e que despiu Jesus menino vendo a face de si mesmo.
Caeiro tinha dois discípulos, um era Ricardo Reis (a qual pessoa costumava dizer ter atribuído toda sua disciplina mental), o médico, que residia no Brasil, pois teria idéias monárquicas e que ensinava latim em algum colégio americano, e o outro era o mais sensitivo de todos e, talvez, mais próximo de Pessoa, Álvares de Campos, que como os leitores sabem era engenheiro naval, meio ligado ao futurismo, etc.
O Poeta português afirmava em suas cartas que desde criança era assim, com cinco anos já escrevia cartas para si mesmo sob o título de tal de Chevaliers de Pas, coisa a qual eu achei formidável, uma criança e seus amigos imaginários, mas um homem de mais de 30 anos, achei esquisito. Mas, confesso, não posso falar muito.
Gosto do Pessoa, gosto do misticismo, do seu patriotismo por uma pátria decadente e o amor por uma humanidade meio torpe. E não é que sou parecido com ele neste ponto, mas não sou gênio nem poeta, sou um embrião de rascunhos mal feitos, acho uma definição estranha, incoerente, mas me sinto assim, a incoerência em si e pronto. Outra curiosidade são as várias passagens de textos a falar da Maçonaria. Embora tenha dito que jamais tenha se filiado formalmente a qualquer entidade ou fraternidade esotérica seus escritos são fortemente marcados pelo simbolismo rosicruciano e maçom, principalmente em Mensagem.
Curioso e comovente é quando ele nos conta que no dia 26 de abril de 1916 Mário de Sá-carneiro suicidou-se em um hotel em Paris. Faz comentários sobre o temperamento do poeta, e podemos observar a sua angústia diante de uma perda da qual nunca se recuperou. Em outros textos faz alusão à sexualidade de “celebridades” universais, tais como Shakespeare e Rousseau, sendo que este, segundo o poeta, era sado e aquele uma “Fanta”.
Enfim, curiosidades à parte o livro está cheio de tesouros implícitos de um dos grandes expoentes da literatura portuguesa e mundial de todos os tempos. Livro maravilhoso que revela que há pessoas que pensam como eu (e como muitos) condenadas pela sociedade como loucas, mas eram apenas normais em meio a um bando de seres comuns.
Namaskar.
29 29UTC Agosto 29UTC 2008 às 7:16 pm |
Fernando Pessoa realmente é um autor muito intrigante ou diríamos uma personagem intrigante, infinita era a sua capacidade ou melhor ainda é pois ele me emociona sempre!!!!!!!!!