O nome era Haroldo, sua casa, três quadrinhos e uma história, só. Haroldo não gostava de sua vida como quadrinho, todos os dias, em uma página de jornal local, inaugurava uma nova narrativa a considerar assuntos que ele considerava pouco importantes: política, negócios, guerra. Para ele aquilo só poderia ser imaginação, afinal os homens são inteligentes, porque então haveriam de lutar uns contra os outros, destruindo a si mesmo? Haroldo, o quadrinho, não entendia (vai ver que desconhecia o mundo de outro quadrinho, mais famoso, chamado Mafalda).
Já contei como era o Haroldo? Não?! Haroldo era pequenino, as pernas eram finas e pequenas, a cabeça era enorme e seu rosto disforme sempre a acentuar uma lágrima no canto esquerdo do globo. Na verdade seu autor não era muito habilidoso em tracejar bem as linhas, dizem que o homem era alcoólatra e que, devido a um problema que desconsideramos mencionar, não conseguia articular bem os movimentos, mas era um gênio com os textos e contextos, colocava bem as palavras, não aquela coisa tijolo em cima de tijolo, era mágica, algo que surge e pronto, mais nada.
Enquanto seu mestre desenhava, Haroldo pensava, vivia naquele estranho mundo cubiforme, quando gritava gostava de ver os efeitos nos ícones sinestésicos que os especialistas chamam de balão, ou discurso direto, enfim. Eles tinham o formato de raio quando ele ficava em fúria, ou um formato nuvem quando sonhava. Em cada emoção um balão, outro dia quis flutuar em uma de suas falas, para isso começou a pensar em algo vazio, flutuou, mas somente dentro do limite da moldura que o cerca.
Foi aí que Haroldo começou a se tornar, talvez, mais “humano” e a estranhar sua vida, deu início à formulação de conceitos como Liberdade e Fraternidade. Não suportava mais a vida exposta daquele jeito. Todos conheciam suas idéias, seus pensamentos, suas necessidades. Haroldo padecia em viver aquele BBB o qual ele era contumaz em criticar “um estímulo ao totalitarismo” era o que dizia sobre o programa do Bilau.
Quando não observava suas falas, em frases pontuais, Haroldo olhava a moldura que o contornava; “seria assim a vida humana?”, pensava e de tanto pensar que a moldura sumiu, o requadro, que agora era espaço infinito, tinha proporções infinitesimais (se é que existe tal palavra ou o que ela significa, penso nela toda vez em algo distante, imensurável, outra palavra que só de falar cansa). Haroldo então criou para si um mundo próprio com uma rosa de papel e um cãozinho robô, não havia muito com quem interagir e é sempre bom construir o conhecimento com outras “coisas”. Como diz o Jacobi “sem o Tu não há o Eu” e ele, Haroldo, era cônscio disso.
O autor estranhou quando começaram a aparecer coisas novas em seus quadrinhos, julgava ser fruto de sua imaginação ou de seu estado ébrio constante, enfim, notava que os personagens eram mais bem definidos e que agora havia uma rosa e um cãozinho robô, de onde havia tirado aquilo? Enfim, não lembrava, gostava da rosa de papel, lembrava do pequeno príncipe, a rosa em sua redoma, e do cão lembrava o conto de Yudisthira as portas do céu.
Haroldo sabia que o autor não desconfiaria, conhecia o seu mentor, quando este tracejava as linhas Haroldo sentia suas mãos expressarem tristeza, angústia, dúvida. Haroldo conhecia aquele homem através da criação de si mesmo, será que com Deus o processo se dá assim?
Todos os dias havia de ter três momentos em sua vida. A vida era uma aventura curta para Haroldo, historinha de início, meio e fim, comunicação rápida, clara e concisa, mas estava enfadado daquela história sem graça, Haroldo queria ser livre, queria ser humano, estar condenado à felicidade e ter uma história que não tem fim, contudo era apenas desenho, tracejo de linhas mal compostas, angustiou-se e desatou a chorar.
Copiosamente o choro o transmutava em menino que ao despertar deu-se conta de que era enfim humano. Ao seu lado a flor não era mais de papel e seu cão não era mais robô, ainda entusiasmado tentou procurar seu mentor, mas ele havia virado desenho, havia virado rascunho, bêbado sobre um criado-mudo.
Fim.
Ps. Eu apenas recordei do Haroldo das tiras do Calvim após a elaboração do texto.
Ps2. Eu já disse a vocês que são textos experimentais, portanto nada de ficarem chateados com mais outra criação ruim.