Posts de Julho, 2008

Haroldo

29 29UTC Julho 29UTC 2008

O nome era Haroldo, sua casa, três quadrinhos e uma história, só. Haroldo não gostava de sua vida como quadrinho, todos os dias, em uma página de jornal local, inaugurava uma nova narrativa a considerar assuntos que ele considerava pouco importantes: política, negócios, guerra. Para ele aquilo só poderia ser imaginação, afinal os homens são inteligentes, porque então haveriam de lutar uns contra os outros, destruindo a si mesmo? Haroldo, o quadrinho, não entendia (vai ver que desconhecia o mundo de outro quadrinho, mais famoso, chamado Mafalda).

Já contei como era o Haroldo? Não?! Haroldo era pequenino, as pernas eram finas e pequenas, a cabeça era enorme e seu rosto disforme sempre a acentuar uma lágrima no canto esquerdo do globo. Na verdade seu autor não era muito habilidoso em tracejar bem as linhas, dizem que o homem era alcoólatra e que, devido a um problema que desconsideramos mencionar, não conseguia articular bem os movimentos, mas era um gênio com os textos e contextos, colocava bem as palavras, não aquela coisa tijolo em cima de tijolo, era mágica, algo que surge e pronto, mais nada.

Enquanto seu mestre desenhava, Haroldo pensava, vivia naquele estranho mundo cubiforme, quando gritava gostava de ver os efeitos nos ícones sinestésicos que os especialistas chamam de balão, ou discurso direto, enfim. Eles tinham o formato de raio quando ele ficava em fúria, ou um formato nuvem quando sonhava. Em cada emoção um balão, outro dia quis flutuar em uma de suas falas, para isso começou a pensar em algo vazio, flutuou, mas somente dentro do limite da moldura que o cerca.

Foi aí que Haroldo começou a se tornar, talvez, mais “humano” e a estranhar sua vida, deu início à formulação de conceitos como Liberdade e Fraternidade. Não suportava mais a vida exposta daquele jeito. Todos conheciam suas idéias, seus pensamentos, suas necessidades. Haroldo padecia em viver aquele BBB o qual ele era contumaz em criticar “um estímulo ao totalitarismo” era o que dizia sobre o programa do Bilau.

Quando não observava suas falas, em frases pontuais, Haroldo olhava a moldura que o contornava; “seria assim a vida humana?”, pensava e de tanto pensar que a moldura sumiu, o requadro, que agora era espaço infinito, tinha proporções infinitesimais (se é que existe tal palavra ou o que ela significa, penso nela toda vez em algo distante, imensurável, outra palavra que só de falar cansa). Haroldo então criou para si um mundo próprio com uma rosa de papel e um cãozinho robô, não havia muito com quem interagir e é sempre bom construir o conhecimento com outras “coisas”. Como diz o Jacobi “sem o Tu não há o Eu” e ele, Haroldo, era cônscio disso.

O autor estranhou quando começaram a aparecer coisas novas em seus quadrinhos, julgava ser fruto de sua imaginação ou de seu estado ébrio constante, enfim, notava que os personagens eram mais bem definidos e que agora havia uma rosa e um cãozinho robô, de onde havia tirado aquilo? Enfim, não lembrava, gostava da rosa de papel, lembrava do pequeno príncipe, a rosa em sua redoma, e do cão lembrava o conto de Yudisthira as portas do céu.

Haroldo sabia que o autor não desconfiaria, conhecia o seu mentor, quando este tracejava as linhas Haroldo sentia suas mãos expressarem tristeza, angústia, dúvida. Haroldo conhecia aquele homem através da criação de si mesmo, será que com Deus o processo se dá assim?

Todos os dias havia de ter três momentos em sua vida. A vida era uma aventura curta para Haroldo, historinha de início, meio e fim, comunicação rápida, clara e concisa, mas estava enfadado daquela história sem graça, Haroldo queria ser livre, queria ser humano, estar condenado à felicidade e ter uma história que não tem fim, contudo era apenas desenho, tracejo de linhas mal compostas, angustiou-se e desatou a chorar.

Copiosamente o choro o transmutava em menino que ao despertar deu-se conta de que era enfim humano. Ao seu lado a flor não era mais de papel e seu cão não era mais robô, ainda entusiasmado tentou procurar seu mentor, mas ele havia virado desenho, havia virado rascunho, bêbado sobre um criado-mudo.

Fim.

Ps. Eu apenas recordei do Haroldo das tiras do Calvim após a elaboração do texto.

Ps2. Eu já disse a vocês que são textos experimentais, portanto nada de ficarem chateados com mais outra criação ruim.

Em um fim de tarde enxerga-se uma certeza

28 28UTC Julho 28UTC 2008

Lá estava eu, revolto em meus pensamentos a cortejar o rio. Olhava sua força, sua corrente, e os pequeninos barquinhos a seguir jornada… Fim de tarde de um fim de semana atípico da cidade, lugar vazio, urbe fantasma devido às férias e eu estava lá com ela, com minha costelinha, minha pequenina a olhar o dia se misturar a treva.

Observo mais além, volto meus olhos para dentro de mim, revejo a harmonia do universo, a música das esferas. Então parafraseio uma frase de algum anônimo “que inveja tenho da criança que nada sabe do mundo e o vê como grande mistério”, meus olhos então se fecham em um segundo, paz. Como é bonita a felicidade, recordo de outra frase, de Don Afonso, patriarca da família Maia na obra de Eça de Queiroz “A ironia da vida parece ser que a felicidade está sempre nas mãos dos outros”. Mas ela estava ali, comigo, até quando?

A pequenina pouco falava, eu escutava a cadência da sua voz, a melodia que agora orquestra meu espírito, ela discursava baixinho, fala mansa, em acordes em lá menor, e eu a ouvir, devagar. Ela faz adormecer minha alma e após despi-la de todas as angústias a acalentava em seu ombro. Desesperadamente tento continuar meus devaneios, mas ela diz para eu voltar, voltar daquele mundo de quadrinhos, daquele espaço cubiforme, em moldura de nuvem, de sonho…

Ao voltar me deparei com uma porção de nuvens, uma tempestade havia de se aproximar, ventava mais forte, de longe observávamos a chuva que chegava com fúria, o céu chorava como criança e eu assistia àquele espetáculo imóvel… Você leitor já tentou brincar com as nuvens?

Eu costumo desenhar nelas, naquela tarde eu desenhei nas nuvens, rascunhava meus heróis de outrora, desenhava os bustos de alguns filósofos, alguns apenas de bigode, em outros a matemática de um teorema simples.

Eu brincava com as nuvens, desenhava nelas seres fantásticos e a pequenina dizia: “olha lá, um cãozinho…” Eu sorria, ela sabia desenhar em nuvens. Para mim, que ainda sou pequeno, não poderia conceber alguém que não saiba desenhar em nuvens, simplesmente não é humano… Ela desenhava, sorria, imaginava o mundo como uma grande anedota contada pelo pai…

De frente o horizonte me esperava, ele queria conversar comigo, dizem que o horizonte guarda todos os segredos do mundo e que basta que você o encare com sinceridade para que ele lhe dite qualquer resposta…

Naquele momento eu voltei a observar à namorada, aquele anjo sem asas, o momento de paz, talvez de luz em uma alma opaca… Deu vontade de falar algo, mas só consegui dizer “de que adianta saber tudo”, de que adianta se o segredo da vida é justamente não saber…

Namaskar.

A Moderna Idade Média

22 22UTC Julho 22UTC 2008

Olá Irmãos, mais uma vez estou aqui para alertá-los para a onda crescente de fanatismo, proselitismo e superstição que circula o mundo como um grande demônio funesto capaz de destruir tudo que toca. O vídeo apresentado a vocês é uma demonstração de loucura coletiva que assola um dos países do continente africano: a Nigéria.

A Superstição é um câncer, um dos mais dolorosos para a humanidade porque é capaz de espalhar a loucura tornando-a coletiva em pouco tempo. É curioso como os homens tão dotados de razão e em um mundo dito moderno ainda são capazes de pensar de maneira tão bestial como esses irmãos, mas é claro que a culpa não é de nenhuma dessas pessoas que são vítimas de falsos profetas que incitam a violência em um ponto tão grotesco que são capazes até mesmo de humilhar, dilacerar, e torturar crianças para terem seus desejos infames satisfeitos.

O meu discurso mais uma vez não é contra a religião, pois a religião não é nada disso que observamos neste vídeo acima. Religião é uma ponte que une os homens aos deuses, deveria ser um momento em que todos, unidos, formássemos uma corrente de fraternidade universal que nos ligasse a divindade que reside em nós. Religare, termo latino que traduzido nos fala de religação, união, tal como na Yoga hindu.

Os formatos das grandes catedrais relembram uma grande Barca celeste, você leitor já percebeu isso? Um barco em que todos deveriam entrar, pois os homens se reúnem para cultuar o que é sagrado. Tal culto é tão antigo quanto os homens, ele já nos foi apresentado pelos egípcios na barca celeste de Ísis e no conceito da filosofia vedantina em que todos somos um. A escola Mahayana do budismo também nos relembra (em seu próprio nome) este conceito tão benéfico aos humanos.

Porém com o advento de uma era de dissolução de valores estamos vivendo um período de decadência em que somos apenas figurantes de um mundo em que nossas referências são celebridades, pessoas oligárquicas preocupadas com o dinheiro, ou timocráticas, preocupadas com o status social. Sofremos o peso de estarmos sob uma democracia disfarçada de terrorismo e ditadura em que somos vigiados o tempo todo pelos Grandes Irmãos das Sombras.

Os resultados deste movimento dos homens em direção aos abismos mais profundos se revelam nestas imagens em que crianças são torturadas e humilhadas pelo fanatismo infame e execrável de alguns lunáticos, porém como já foi dito a culpa não é dessas pessoas que são enganadas e levadas a acreditar em coisas das quais nós, os homens, já havíamos superado (será mesmo?).

Fico imensamente triste com tais fatos que acometem nossos irmãos da África, porém, aqui mesmo em nosso país já começam a aparecer fanáticos de um calão grosseiro capazes de espancar qualquer pessoa que não acredita nas suas afirmativas esdrúxulas.

Hoje estava na parada de ônibus, estava a ler o livro “Contraponto” de Huxley e um homem aproximou-se de mim e disse:

- oi irmão, você é de Deus?

Não entendendo muito bem aquela pergunta e olhando para meu livro que parecia uma bíblia eu respondi:

- Todos nós somos, não?

Juro aos leitores que ele deu uma risada sarcástica bizarra até se babar todo e apertou minha mão despedindo-se…

As almas da Idade Média estão reencarnando (será?). Só espero que não comecem a acender fogueiras, que os deuses zelem por nós.

Namaskar.