Posts de Maio, 2008

“O verdadeiro caminho é o Amor, por ele conhecerás o Mistério”

23 23UTC Maio 23UTC 2008

“Minha Religião é a Humanidade”

(Bob, desvarios de um cão solitário)

Mais uma vez, durante todos esses anos, sou interpelado pela seguinte pergunta: Roberto, estou preparada para o caminho espiritual? Eu me quedo até assustado, e meus amigos sabem o porquê, pela razão simples de ser uma pessoa qualquer e simples, um ser humano bobo, ainda engatinhando na vida e que e não possui esse peso sobre os ombros. O de decidir os descaminhos de alguém. Há ainda o fato de não ser iniciado, nem mestre e, tampouco, discípulo, portanto não compreendi a pergunta da menina.

Mas o que me assustou foi o que ela me disse, o que dividirei com os leitores neste momento oportuno. Na verdade três histórias se fundem aqui, são três meninas que me perguntaram coisas diversas, peguei os exemplos das três para abordar um mesmo tema, do qual falarei agora de forma sucinta.

Uma das pequenas mora em uma cidade distante, em tal lugar ela tem uma “mestra” que ensina a garota a despertar a visão astral. Os estudantes mais sérios de ocultismo sabem das implicações reais deste poder latente do homem. Sim! Latente, pois todo homem guarda em si uma centelha de divindade. Porém, sabem também os estudantes de Ocultismo que tais práticas podem trazer ao neófito sérias complicações em sua psique, pois nem sempre o que se vê no plano astral é interessante.

Os problemas ainda podem ser maiores quando a pessoa está completamente desorientada e faz experiências em viagens astrais, em que sua alma se desliga do corpo temporariamente e viajas em planos sutis. Sabemos que isso é extremamente perigoso, pois podemos ser aprisionados por vampiros astrais, além de quê nosso anthakarana pode se romper, vindo nosso corpo físico a falecer. N coisas das mais estranhas e assustadoras podem ocorrer em tais viagens, podendo trazer a pessoa os desatinos e os desacertos da loucura, além de problemas kármicos intermináveis (por longas reencarnações).

Já foi dito aqui que ocultismo não é uma bobagem e que deve ser tratado com todo respeito do mundo, pois é uma Ciência do Espírito. Não é espiritualidade sentar-se em posições estranhas e fazer exercícios de hatha-yoga, isto não é ocultismo, mas não podemos deixar de ver os resultados benéficos que a meditação traz e os exercícios para o corpo. Porém, meditação não é apenar sentir o vazio, meditar é agir no mundo de forma a transmutá-lo, torná-lo melhor, através de nossos pensamentos, que em níveis sutis, também são formas e projeção de ações.

Yoga é uma filosofia de vida que pode se dividir em sete planos em que você precisa praticar as nobres oito verdades de Buddha – com dois d, pois se refere a Gautama Buddha – (não precisa ser budista, estou a falar da Filosofia de Buddha: nobres pensamentos, ações, etc.). Yoga é uma filosofia de vida e não apenas exercícios de alongamento. Há alongamentos para a alma e estes são sempre o Amor e a Compaixão. Viver os Valores Universais é praticar Yoga, e não ficar emitindo o sagrado OHM à toa, ou para fins egocêntricos.

Essas Verdades Universais (Amor e Compaixão) são os segredos do universo, os segredos da entropia e da neguentropia, os segredos dos ciclos cósmicos e etc.

Não adianta enxergar mundos sutis, em planos astrais se você nem sequer compreende seu universo físico, os fenômenos mais simples, então para que incorrer os riscos de ver o que ainda não se pode compreender? Por vaidade? Isto é magia negra.

Por isso os mestres espirituais, os guias da humanidade, reservam ao homem conhecer a verdade somente quando estão preparados, quando não há mais traços de egoísmo em sua personalidade castigada pela vida. Os mestres fazem por amor e não por quererem guardar os segredos para si, como alguns pensam. Estes homens que doam suas vidas por amor a nós querem que encontremos as respostas, mas para isso precisamos romper as cadeias do egoísmo e da falta de humildade.

Nossa civilização é tola, e ainda é jovem, precisa apanhar muito, mas iremos chegar lá, todos juntos, cantando a canção da esperança que move os homens, o mundo e o Universo.

Namaskar.

Os Olhos da Menina…

21 21UTC Maio 21UTC 2008

Você leitor certamente já andou de ônibus, não é? E sabe que há as mais variadas possibilidades de situações que podem ocorrer dentro desses coletivos, que em nossa cidade, são tão maltratados que chegam a levar a doce alcunha de “carcaças”.

Acredito que ônibus também é lugar de filosofia, pois possibilita a interação entre os diferentes tipos humanos, diversas formas de pensares, etc. Drummond que não me deixa mentir, suas crônicas, diversas, saíram de situações ocorridas dentro deles. Bem, deixa contar a história que vi, estória ou história? Ai! Que me tiraram a diferença mágica do que é fantástico ou real, mas enfim, contarei do mesmo jeito as coisas como se sucederam, ou não.

Sentado em um dos bancos do ônibus tive a impressão de ter visto uma daquelas cenas curiosas de amor. Um casal, jovens, ainda a descobrir o amor, estava a conversar. O garoto gesticulava, reclamava que sua atual “namorida” não dava atenção a ele, que era fria demais, que havia, talvez, voltado com o namorado, que não entendia a razão daqueles joguinhos (nunca deve ter namorado).

Eu atento, queria saber dos particulares da história, não que seja fofoqueiro, mas daria uma bela história para o blog e também nada havia para fazer, então vasculhava os desatinos alheios e foi quando ao desviar a atenção do rapaz vi os olhares da menina-amiga, aqueles olhares… E percebi tudo.

Era um olhar meio de amargura e paixão, encantada pelo rapaz que dizia para si mesmo (sim, para si) que a namorada não gostava dele, que haveria de ser ingrata e a menina aceitava tudo pacientemente, e consolava o rapaz, dizia que ela, a namorada, não merecia alguém tão generoso, tão carinhoso, etc.  Ao olhar para ela, vi que em seus desejos mais íntimos, pintados com requintes de fantasia, imaginava-os juntos, ao andar pelos descaminhos da vida, com 50 anos contando e desfolhando flores em algum jardim botânico qualquer.

“O homem ama aquilo que não tem”, diria Platão, e não é que ele estava certo, pois estava lá nos olhos da menina, olhos a dizer que ela sim era a pessoa perfeita, que jamais faria uma crueldade com moço tão sincero. Estava lá, naqueles olhos marejados um amor inocente, tolo, que não era capaz de expressar-se e que ao deixar o tempo passar se perdia, se deixava ficar amarelo, sem vida, e um coração antes cheio de vivacidade se tornava cheio de amargura por aquilo que não se podia ter.

Como me fazem sofrer os olhos da pequena, olhos que já tive um dia. “Deu-me até vontade de ir lá e dizer: – ê cara, olha a garota perto de ti, ela tem o amor que você deseja” e volto a pensar que amamos o que não temos, desejamos o que não podemos ter, e tudo isto naqueles olhos fundos, olhos tristes que talvez um dia descubram o amor, pois ainda é cedo, mas e para os que já enxergaram tarde demais?

Tudo isto nos olhos da menina…

Chego ao fim da minha viagem, meu ponto é o próximo, desejo a ela felicidade, pois também vivi esta forma de amor que às vezes estraga uma amizade. Espero que ao vê-la novamente tenha os olhos resplandecentes, sem tino, olhos apaixonados e perdidos, imersos em paixão.

E você leitor, tem os olhos da menina?

Namaskar.

A Misteriosa Cartinha de um cão amigo,

19 19UTC Maio 19UTC 2008

Belém, 18 de maio de 2008

Caro tio Beto,

Sei que o senhor deve estar preocupado comigo assim tão longe, afinal eu só tenho cinco meses e sair de casa tão cedo deve causar nos pais certa preocupação, mas eu me encontro bem, imagina que estou em um lugar igual àqueles que você mencionava nos livros. Somente difere porque é um lugar para nós, os cães.

Olha só, aqui tenho muitos amigos, diversos, amigos mil, e o senhor não deve ficar a lamentar minha partida, afinal, todas as relações são castelos de areia e foi você quem me disse isto. Recorda? Aqui eu tenho como amiga a cachorrinha Baleia, lembras dela? Maravilhosa amiga e gosta de filosofia, disse que aprendeu muito com Fabiano, mas é presunçosa, disse que era a personagem mais importante do romance de Graciliano Ramos (contudo em minha opinião acho que ela é mesmo, né tio?).

Imagina que aqui temos uma biblioteca fantástica e não preciso de ninguém para traduzir os escritos, estão escritos em Canino, nossa linguagem. Mas na verdade para entender a linguagem dos cães e dos animais há de se entender a filosofia do som, o segredo está nele, nos intervalos entre um latido e outro, portanto, como o senhor é meio surdo nunca pôde entender a nossa linguagem. Shopenhauer entendia e muito bem, pois outro dia estive a ter com Atman* uma conversa.

Existe aqui aquela velha mística da qual vives a falar. Nós olhamos as flores e as entendemos como parte de nós, um panteísmo curioso e um sentimento de unidade reconfortante, nem me sinto um cachorrinho de uma alma só, tenho em mim todos os sentimentos do mundo, e quando quero trago uma idéia que gosto até mim e fico a olhar para ela, resplandecente. Ah, se o homem soubesse como há beleza nas idéias e de como com certa clareza podemos trazê-las até nós e sintetizá-las em palavrinhas, Einstein que o diga.

Na verdade tio, eu não gostava muito de viver em um lugar em que predomina a competitividade e o egoísmo, seilá, mas sabe aquele papo de magnetismo? Pois então, eu sofria muito com esses sentimentos perturbadores, emoções descontroladas, desenfreadas que ressoam no planeta em intempéries mil. Infelizmente o homem ainda há de aprender que quando destrói algo por nada, destrói a si mesmo, e vai de contra sua natureza.

Prometo não rebuscar muito as idéias, mas é o contato com tantos cães filósofos. Na verdade odeio o rebuscamento, mas gosto da linguagem elaborada, a retórica. Aprendi com o senhor tio, viu? Naquelas tardes em que ficávamos deitados na rede e você recitava a poesia de Drummond e discursava que a vida era uma grande prosa poética, uma grande aventura de heróis e vilões, mas com outros tipos de super-poderes.

A criatividade e o Amor são as maiores armas do ser humano, lembra? Você me disse naquela tarde em que me levou até a rua pela primeira vez. Fiquei encantado com o mundo e jamais imaginava que ficaria doente tão rápido, e vindo parar aqui, no país das flores e dos cães, sinto falta da minha avó e meu pai, mas tenho de ficar aqui, não posso voltar. Mas sei que vocês entendem que aqui sou feliz e que quando algo de bom acontece na vida da gente essa coisa não há de morrer, e nossa amizade não há de morrer nunca.

Acredito que o Amor é algo mesmo divino e que me aproxima mais de ser humano, como será? Mas deixo isto para o senhor pensar. Olha, não posso mais escrever, regras daqui, desculpe, queria manter o contato, manter as relações, mas não posso, tenho de cortar os vínculos, imagina só? Mas havemos de nos encontrar novamente em cada idéia, em cada parafraseio de Nietzsche e em cada fim de tarde, pois a Amizade é e jamais deixa de ser.

Tio, encerro aqui, vou brincar com as preás e a Baleia, depois vamos à biblioteca pegar alguns exemplares de Nietzsche. Ah, e aproveitando a oportunidade queria dizer-te tio que agradeço o tempo em que estiveram comigo, o senhor a vovó e o pai. Ah, veja também se dá um jeito nessa alma caótica, consiga transformá-la em um bailarino dançante (risos). Vou brincar tio, adeus e não se esqueça que o Amor é a Verdade, tanto para um cão quanto para o Universo.

Atenciosamente,

Bob Two

Obs. Sexta feira passada, Bob Two morreu, vítima de uma infecção generalizada. Os médicos tentaram de tudo e os amigos donos também, infelizmente chegou em casa já muito doente, cambaleando, era um cachorro poeta, boêmio e como os românticos resolveu deixar-se levar pelos mistérios da morte.

Só queria dizer ao Bob que quem agradece sou eu, por ser um amigo tão bom e por ser a eterna criança que eu sempre quis ser.

· Atman era o cachorrinho filósofo de Shopenhauer.

Namaskar.