Posts de Maio 19th, 2008

A Misteriosa Cartinha de um cão amigo,

19 19UTC Maio 19UTC 2008

Belém, 18 de maio de 2008

Caro tio Beto,

Sei que o senhor deve estar preocupado comigo assim tão longe, afinal eu só tenho cinco meses e sair de casa tão cedo deve causar nos pais certa preocupação, mas eu me encontro bem, imagina que estou em um lugar igual àqueles que você mencionava nos livros. Somente difere porque é um lugar para nós, os cães.

Olha só, aqui tenho muitos amigos, diversos, amigos mil, e o senhor não deve ficar a lamentar minha partida, afinal, todas as relações são castelos de areia e foi você quem me disse isto. Recorda? Aqui eu tenho como amiga a cachorrinha Baleia, lembras dela? Maravilhosa amiga e gosta de filosofia, disse que aprendeu muito com Fabiano, mas é presunçosa, disse que era a personagem mais importante do romance de Graciliano Ramos (contudo em minha opinião acho que ela é mesmo, né tio?).

Imagina que aqui temos uma biblioteca fantástica e não preciso de ninguém para traduzir os escritos, estão escritos em Canino, nossa linguagem. Mas na verdade para entender a linguagem dos cães e dos animais há de se entender a filosofia do som, o segredo está nele, nos intervalos entre um latido e outro, portanto, como o senhor é meio surdo nunca pôde entender a nossa linguagem. Shopenhauer entendia e muito bem, pois outro dia estive a ter com Atman* uma conversa.

Existe aqui aquela velha mística da qual vives a falar. Nós olhamos as flores e as entendemos como parte de nós, um panteísmo curioso e um sentimento de unidade reconfortante, nem me sinto um cachorrinho de uma alma só, tenho em mim todos os sentimentos do mundo, e quando quero trago uma idéia que gosto até mim e fico a olhar para ela, resplandecente. Ah, se o homem soubesse como há beleza nas idéias e de como com certa clareza podemos trazê-las até nós e sintetizá-las em palavrinhas, Einstein que o diga.

Na verdade tio, eu não gostava muito de viver em um lugar em que predomina a competitividade e o egoísmo, seilá, mas sabe aquele papo de magnetismo? Pois então, eu sofria muito com esses sentimentos perturbadores, emoções descontroladas, desenfreadas que ressoam no planeta em intempéries mil. Infelizmente o homem ainda há de aprender que quando destrói algo por nada, destrói a si mesmo, e vai de contra sua natureza.

Prometo não rebuscar muito as idéias, mas é o contato com tantos cães filósofos. Na verdade odeio o rebuscamento, mas gosto da linguagem elaborada, a retórica. Aprendi com o senhor tio, viu? Naquelas tardes em que ficávamos deitados na rede e você recitava a poesia de Drummond e discursava que a vida era uma grande prosa poética, uma grande aventura de heróis e vilões, mas com outros tipos de super-poderes.

A criatividade e o Amor são as maiores armas do ser humano, lembra? Você me disse naquela tarde em que me levou até a rua pela primeira vez. Fiquei encantado com o mundo e jamais imaginava que ficaria doente tão rápido, e vindo parar aqui, no país das flores e dos cães, sinto falta da minha avó e meu pai, mas tenho de ficar aqui, não posso voltar. Mas sei que vocês entendem que aqui sou feliz e que quando algo de bom acontece na vida da gente essa coisa não há de morrer, e nossa amizade não há de morrer nunca.

Acredito que o Amor é algo mesmo divino e que me aproxima mais de ser humano, como será? Mas deixo isto para o senhor pensar. Olha, não posso mais escrever, regras daqui, desculpe, queria manter o contato, manter as relações, mas não posso, tenho de cortar os vínculos, imagina só? Mas havemos de nos encontrar novamente em cada idéia, em cada parafraseio de Nietzsche e em cada fim de tarde, pois a Amizade é e jamais deixa de ser.

Tio, encerro aqui, vou brincar com as preás e a Baleia, depois vamos à biblioteca pegar alguns exemplares de Nietzsche. Ah, e aproveitando a oportunidade queria dizer-te tio que agradeço o tempo em que estiveram comigo, o senhor a vovó e o pai. Ah, veja também se dá um jeito nessa alma caótica, consiga transformá-la em um bailarino dançante (risos). Vou brincar tio, adeus e não se esqueça que o Amor é a Verdade, tanto para um cão quanto para o Universo.

Atenciosamente,

Bob Two

Obs. Sexta feira passada, Bob Two morreu, vítima de uma infecção generalizada. Os médicos tentaram de tudo e os amigos donos também, infelizmente chegou em casa já muito doente, cambaleando, era um cachorro poeta, boêmio e como os românticos resolveu deixar-se levar pelos mistérios da morte.

Só queria dizer ao Bob que quem agradece sou eu, por ser um amigo tão bom e por ser a eterna criança que eu sempre quis ser.

· Atman era o cachorrinho filósofo de Shopenhauer.

Namaskar.