Posts de Maio, 2008

Vocês Lembram?

28 28UTC Maio 28UTC 2008

Lembram da Ditadura? Aquela que durou mais de vinte anos, que calou o povo, exilou os intelectuais, destruiu a liberdade, torturou, humilhou e assassinou milhares de jovens, verdadeiros idealistas, homens que hoje fazem falta em uma sociedade de caprichos infantis, sociedade do ter, em que todos esqueceram de Ser Humanos. Sociedade de irmãos que olvidaram da mensagem do Chico, do Baiano tropicalista. Sociedade “muda e telepática” que nunca soube o porquê de estar aqui.

Mas, esperem, parece que agora há uma ditadura nova, gente. Toda Moderna, disfarçada de democracia, alimentada pela antiga política (muito eficaz) do pão e circo, mas que hoje, revitalizada, poderia se chamar política do “fast-food” e tevê. Ditadura da alienação, do excesso de informações dispensáveis, da bitolação, das notícias dos famosos, das novelas fantasiosas, do mundo da diversão e da falta de esperança que é a televisão. Ô caixinha desgraçada aquela, mata mais do que a quebra de um átomo, não crema o corpo, mas a alma. Inimigo bom de lutar essa nova ditadura, ein?

Ah, Lembram da Escravidão?  Que arrancou os nossos irmãos de seu país, os enfiaram em porões escuros, repletos de ratos e fezes, navios chamados de “negreiros”, depois atravessaram os mares, colocaram-lhes grilhões, destruíram sua Liberdade, “restituída” séculos depois, por interesses mercantilistas e não humanos como deveria ser.

Mas, infelizmente, os resultados nefastos daquela loucura coletiva ainda refletem na sociedade. Hoje, por exemplo, são muitas as pessoas, herdeiras da triste sina de seus ancestrais, que sofrem pelo estigma da cor e marginalizadas, sem oportunidade e trabalho, ficam exiladas da nação e, atualmente, encontram-se nos semáforos, a maioria crianças, nova geração de uma cadeia infinita de miséria, a realizar malabarismos para viver.

Isso quando não estão nas cadeias, ou então quando recebem certa cota do governo em universidades particulares para suposta inclusão social que acarreta em muitas dúvidas, instiga o ódio de alguns que não compreendem a imensa dívida social que temos com nossos irmãos.

Ah, esqueci de dizer que ela, a escravidão de antigamente, não desapareceu e atualmente, se manifesta de outras formas,  em novos formatos, “modernos”, que não atingem apenas os negros, e sim  pardos, amarelos, brancos, índios etc. Está em toda parte, em sistemas ainda feudais de fazendas no interior do Pará, ou pela américa latina na exploração da população carente pelas grande corporações internacionais.

 

Opa! Esqueci de dizer que a escravidão moderna não restringe apenas nossas liberdades individuais de locomoção, ir e vir, etc. É também uma escravidão ideológica que faz de nos títeres da nova moda, do consumo, do materialismo que tinge de cinza o que antes era vermelho (chamado por alguns de barbárie e por outros de liberdade).

Para finalizar, vocês lembram das guerras? Inúmeras, não? Primeira, Segunda, Terceira, Quarta, Iraque, Vietnã, Coréia, ∞. Enfim, infinitas, e hoje, no mundo moderno, ainda estamos combatendo. Mundo da diplomacia, da razão, em que tudo se explica (ou não) e o que não se explica é tratado como aberração.

É neste mundo que lutamos feitos animais imbecis para nenhum fim… A guerra do Iraque é para quê mesmo? Bem, o Senhor Presidente deles adora, ele lucra um bocado com a morte dos seus súditos, a parceria com a Carlyle Group tem gerado uns bons lucros.

Guerra tecnológica… Existe termo mais imbecil? Até quando vamos usar nossos conhecimentos, coisas as quais lutamos tanto para conseguir, em lutas estranhas sem nenhum sentido real para com nada a não ser o lucro de alguns velhos espertinhos? A destruição continua, milhares de vidas em potencial perdidas, mutiladas, esquartejadas, de jovens cheios de sonhos e desejos de um mundo melhor, que terminam com um belo tiro de fuzil, ou por uma napalm bem escondida. Quando vamos entender que tudo isso é vaidade?

É simples: quando descobrirmos quem somos, quando descobrirmos que não somos assassinos, que somos criaturas divinas, que estão aqui para colaborar e viver como humanos e não como animais que nascem, crescem, comem, excretam, morrem e mais nada. Somos mais que isso, somos humanos, criamos um mundo cheio de problemas, mas também construímos coisas maravilhosas, somos belos e cheios de sonhos…

Ecoa em nós um sentimento contra toda essa manifestação de ignorância , e esse sentimento é Amor, o Solvente Universal, o elemento que destruirá todas as cadeias de egoísmo e que fará do mundo um lugar melhor para a nova geração, porque a vida não pára, e vivemos apenas um nanosegundo* de toda a História Universal.

Namaskar.

*Em verdade, como disse Jesus a seus discípulos, eu não sei exatamente se existe ou não essa unidade de medida. Até mais.

Uma Partida de Futebol

27 27UTC Maio 27UTC 2008

Lá vem o guri, anjo-torto, com jogo de corpo e tudo, vai pra cima do zagueiro, ginga, brinca, desafia e olha o objetivo: o gol. Moleque que é, sorri para seu algoz que, com cara de segunda-feira, já teme o pior.

É jogo de final de campeonato, a torcida ansiosa treme, os velhinhos e seus inseparáveis radinhos de pilha Duracel têm princípios de taquicardia, as meninas gritam, mas suas estripulias ecoam no vazio do estádio animado, todos se divertem, sem violência, sem bebidas alcoólicas, sem infantilidade, porque isto é coisa de gente grande e tola, vamos voltar à partida.

Trinta do segundo tempo e o placar é de zero a zero para o time do Toninho, moleque ressabiado, torcedor do Paysandu, o azul-celeste paraense. Time que hoje jogas lá pelas cucuias da terceira divisão, mas ele não se importa, continua fiel ao time desacreditado e como neste campeonato tudo é diferente e todos jogam entre si, times de primeira, segunda e terceira, talvez até a quarta divisão, acredita o bacuri (sim, aqui no Norte é bacuri, guri é no sul) que dessa vez seu time sairá vencedor, campeão.

Toninho faz apostas, chega até quase a brigar com um dos amigos, mas o árbitro interfere, diz que ali não há espaço para criancices, que é bobagem brigar, é final de campeonato e todos devem se comportar. Todos prontos, e reinicia a partida.

O time do Jorge é um dos tradicionais do paulistão, joga com facilidade, time repleto de craques, tem Valdívia e Cia. Há espaço para o toque suave de bola, bola que rola, parece dançar no campo retangular agitado, é como se ela, a bola, estivesse ali em transe, se divertindo, daqui/acolá a girar feito um peão, todos se divertem, cantam os hinos dos clubes, Bianca, a pequenina de cinco anos grita: gol!!!

Chega o momento fundamental da partida, o moleque do inicio da crônica corre pela esquerda em uma velocidade fulminante, desvia, toca, tabela, recebe de volta e parte pra cima, o zagueiro é enorme, parece um soldado romano pronto para o abate do inimigo, mas o garoto é esperto, faz que vai e, não vai, passa a bola por cima dos pés, é um mágico equilibrista que de repente faz a bola voar por cima do grandalhão e avança, e corre e chuta e…

Droga! Logo na hora de chutar, quebrou-se a palheta, esforço do jogo, futebol de botão é assim oras, a partida é interrompida por cinco minutos para recomeçar ao som da imensa torcida.

Partida em que todos ganham, partida de moleque travesso, que faz da fantasia sua realidade feliz. Viva o Futebol, calcemos as chuteiras e todos pra rua cantar o Hino Nacional. Tchau.

Os Pequenos Heróis de Tinta e Papel

26 26UTC Maio 26UTC 2008

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Estou a ler, neste momento, uma revista em quadrinhos, daquelas do Maurício de Souza tão mágicas quanto conhecidas. Os personagens são os mesmos da infância de todos nós: Cascão, Cebolinha e seu rotacismo já conhecido, Magali e o apetite similar ao de minha namorada, o Penadinho e etc. Eu fico a reler, sim reler, porque quando você lê as historinhas é como se estivesse a observar algo familiar, algo conhecido, que toca naquelas lembranças proibidas da infância.

E não é que considero tudo isto matéria de Filosofia. Exemplifico ao leitor.

A historinha vem lá do quadrinho do Chico Bento. Zé Lelé está a estranhar o gosto do seu pé-de-moleque, e eis que Chico pergunta:

-que há de errado Zé?

- tá com gosto de chulé.

A piada pode parecer tola, mas para criança é ótimo. O jogo com o significado das coisas, com a linguagem. Efeitos de sentido que dão ao texto um jeito não apenas engraçado, mas reflexivo. É claro que há historinhas melhores, mais interessantes. Certa vez, em aula de filosofia, o professor utilizou-se de uma história do Piteco para explicar o mito da caverna platônico e foi muito bom.

Gosto do caráter das histórias em quadrinhos do Maurício, pelo jeito inocente de abordar a criança que só encontro nas historinhas da turma da Mônica. Comecei a ler pelos imensos almanaques que vendiam em bancas de jornal. Havia uma série de passatempos em que você poderia colorir seus personagens principais, rascunhar idéias, resolver palavras cruzadas, etc. Me divertia um bocado e tinha, claro, uma coleção que desapareceu com o tempo.

Hoje, estou a realizar um trabalho para a faculdade. Estou a Analisar o discurso das historinhas, os efeitos de sentido, a referenciação, tema-rema, cálculos mentais, análises processuais, contexto sociointeracional, etc. Mas quando começo a ler perco o foco de analista de discurso, e volto a ser criança, uma criança grande que lê os quadrinhos, e que depois volta a si, e fica triste, porque voltou a ser abóbora, voltou a ser adulto, e como é chato ser grande.

Queria voltar a ler os quadrinhos sem buscar efeitos de sentido algum, apenas ler e sorrir, por consolação, como diz o Cartola… Ai que saudade dos heróis de tinta e papel.

Namaskar.