Considero redundante dizer que Eduardo foi uma pessoa bizarra, pois bastava olhar a sua estranha aparência para constatar que os fatos por si só falavam mais do que qualquer entrelinha faceira. Pois ninguém entende como uma pessoa normal e comum poderia vestir calça social e camiseta regata, além de sapatos bicolores.
Eduardo era comentário em todo bairro. Paulo comentava com Luiza, que comentava com Patrícia, que comentava com Neves, que comentava com seu papagaio que comentava consigo mesmo. Todos comentavam, os pássaros observavam de soslaio e os transeuntes se afastavam quando o viam por perto.
Eduardo tinha um hobby: gostava de escrever. E tão logo amanhecia, redigia cartas a todos os amigos, pois assim considerava manter o estilo clássico de se cultivar as amizades. Compunha então imensos documentos para vários de seus amigos e, entre eles, Chico Buarque de Holanda, a quem conhecia tão bem e com o qual já chegara a jogar uma emocionante partida de futebol (de botão). Porém não se sabe o quanto há de narrativa ou de relato nesta história. A vida há de ser um mistério, sempre.
O que sempre foi do conhecimento de todos é que Eduardo citava conhecer pessoas importantes. As más línguas das mexeriqueiras da vila sempre pensavam na hipótese da doença das anedotas, enfim, os mexericos sempre morrem como começam: espontaneamente. O fato é que acredito nele. E pensar que dizem que sou louco, o que pode até ser verdade, afinal, minha melhor amiga é uma parede, mas todos hão de ter suas estranhezas e você leitor também as deve ter.
Voltando…
Ahhh! Lembrei agora que, Por exemplo, quando relia os textos de Eduardo, sentia-me contaminado por uma epifania e as palavras ressoavam em minha alma de forma fantástica, inebriante. decerto que poucos compreendiam os anagramas e seus jogos de lógica formal. Eu o considerava um gênio, daqueles que são capazes de mudar o mundo com “trocentas” palavras esquisitas, tal como um tratado moderno de filosofia.
Outro detalhe peculiar da vida de Eduardo eram às noites de domingo em que era costumeira sua presença em reuniões espíritas, porém nada de estranho até aí e nem era possuído por qualquer encosto, o curioso é dizer às pessoas que era a reencarnação de Machado de Assis e publicar textos com títulos estranhos como “Memórias póstumas de Roberto Mutuka”.
Eduardo morreu hoje pela manhã para o abalo deste narrador. O diagnóstico? Trombose n`alma. Bom, isto foi o que disseram os doutores versados em metafísica. Em sua casa, já dilapidada pelos familiares, foi encontrado um extenso material produzido sobre as questões existenciais do ser e uma pequena estátua do Buddha, de quem Eduardo dizia que fora discípulo quando ainda era uma borboleta, enfim, esquisitices a parte vou reler meus livros de Selby.
Namaskar.
Obs. Depois deste eu desisto da ficção. A Literatura agradece jocosamente.