Posts de Abril, 2008

Eduardo

25 25UTC Abril 25UTC 2008

Considero redundante dizer que Eduardo foi uma pessoa bizarra, pois bastava olhar a sua estranha aparência para constatar que os fatos por si só falavam mais do que qualquer entrelinha faceira. Pois ninguém entende como uma pessoa normal e comum poderia vestir calça social e camiseta regata, além de sapatos bicolores.

Eduardo era comentário em todo bairro. Paulo comentava com Luiza, que comentava com Patrícia, que comentava com Neves, que comentava com seu papagaio que comentava consigo mesmo. Todos comentavam, os pássaros observavam de soslaio e os transeuntes se afastavam quando o viam por perto.

Eduardo tinha um hobby: gostava de escrever. E tão logo amanhecia, redigia cartas a todos os amigos, pois assim considerava manter o estilo clássico de se cultivar as amizades. Compunha então imensos documentos para vários de seus amigos e, entre eles, Chico Buarque de Holanda, a quem conhecia tão bem e com o qual já chegara a jogar uma emocionante partida de futebol (de botão). Porém não se sabe o quanto há de narrativa ou de relato nesta história. A vida há de ser um mistério, sempre.

O que sempre foi do conhecimento de todos é que Eduardo citava conhecer pessoas importantes. As más línguas das mexeriqueiras da vila sempre pensavam na hipótese da doença das anedotas, enfim, os mexericos sempre morrem como começam: espontaneamente. O fato é que acredito nele. E pensar que dizem que sou louco, o que pode até ser verdade, afinal, minha melhor amiga é uma parede, mas todos hão de ter suas estranhezas e você leitor também as deve ter.

Voltando…

Ahhh! Lembrei agora que, Por exemplo, quando relia os textos de Eduardo, sentia-me contaminado por uma epifania e as palavras ressoavam em minha alma de forma fantástica, inebriante. decerto que poucos compreendiam os anagramas e seus jogos de lógica formal. Eu o considerava um gênio, daqueles que são capazes de mudar o mundo com “trocentas” palavras esquisitas, tal como um tratado moderno de filosofia.

Outro detalhe peculiar da vida de Eduardo eram às noites de domingo em que era costumeira sua presença em reuniões espíritas, porém nada de estranho até aí e nem era possuído por qualquer encosto, o curioso é dizer às pessoas que era a reencarnação de Machado de Assis e publicar textos com títulos estranhos como “Memórias póstumas de Roberto Mutuka”.

Eduardo morreu hoje pela manhã para o abalo deste narrador. O diagnóstico? Trombose n`alma. Bom, isto foi o que disseram os doutores versados em metafísica. Em sua casa, já dilapidada pelos familiares, foi encontrado um extenso material produzido sobre as questões existenciais do ser e uma pequena estátua do Buddha, de quem Eduardo dizia que fora discípulo quando ainda era uma borboleta, enfim, esquisitices a parte vou reler meus livros de Selby.

Namaskar.

Obs. Depois deste eu desisto da ficção. A Literatura agradece jocosamente.

A morte da Ternura pela Caixa Mágica

23 23UTC Abril 23UTC 2008

Como se já não bastasse nossa contaminação por tudo que há de grotesco, infame e atroz na mídia, agora resolvemos, infelizmente, contaminar os pequenos com os “freak-shows” televisivos.

As Crônicas da vida moderna (que muito tem de bárbara) corroem tudo que há de esperançoso e terno em nós, com um discurso estranho a mostrar que a “realidade” humana é torpe e cruel e que temos de aprender a conviver com a psicopatia, a brutalidade e a falta de humanidade de alguns vermes estranhos.

Tenho acompanhado pelos jornais (impressos ou televisivos) o caso da menina Isabella, que depois de estrangulada, fora jogada pela janela do apartamento em que morava com o pai e a madrasta. A polícia, em que pese, faz um esforço imenso para resolver o caso, contudo nada está determinado, ou sequer resolvido, o certo é que se forem considerados culpados o casal terá a ajuda de pelo menos cinco advogados para montarem sua estratégia de defesa.

Entretanto, não é sobre o caso o que quero discutir, pois basta ligar a televisão e você terá todas as informações pormenorizadas pela mídia. O caso é discutido exaustivamente pelos noticiários, programas de auditório, comerciais, novelas etc. é claro que há certo exagero nestas afirmações, porém o que quero dizer é que a todo o momento somos bombardeados pelas notícias que invadem nosso sistema psíquico já habituado as estranhezas da espécie humana.

Porém, é cada vez maior o número de crianças que acompanham o caso pela televisão. Sabemos que os pequenos ainda não têm uma definição exata e correta (e nem quando adultos terão) sobre o que é a psique humana e suas particularidades. O certo é que estão assustadas com a imensa crueldade do casal responsabilizado pelo crime e transferem esse comportamento sociopata aos seus pais e responsáveis. Então, é comum, nestes casos ver que os pequenos têm medo dos pais, com medo de possíveis agressões, por relacionar as brigas com as notícias.

Tenho visto nos noticiários que os pais estão também receosos com os filhos, pois quando os menores se sentem repreendidos logo se sentem ameaçados pelos pais, tal é a influência das imagens, da linguagem, e do conteúdo das notícias veiculadas pela mídia. Nós estamos acostumados com o banho de sangue da TV. já é comum, então, que os filhos matem os pais, e vice-versa, que “é algo estranho, mas acontece”, não é verdade? Este é o discurso que tenho lido e ouvido pelos cantos.

As crianças estão expostas a essa nojeira toda veiculada pela TV. Entretanto os verdadeiros culpados são os pais são por deixarem os filhos à mercê deste bombardeio de notícias bizarras e sofrem, em seu comportamento, os efeitos morais que tais notícias produzem em nosso coração e mente.

Nós adultos nos encontramos mais animalizados do que os próprios criminosos, pelo fato de que aceitamos estes comportamentos, sim, aceitamos. É comum, neste exato momento, protestos, cartazes e apoio à família da menina. Porém, daqui a alguns meses, ou menos, ninguém falará mais nada até que um novo crime, mais bestial, aconteça e que seja veiculado pela mídia, pelo simples fato de quê todas nossas ações estão sendo comandadas por aquela maldita caixa. Sim, somos animaizinhos imbecis controlados por uma grande circo.

Porém as crianças não. Elas são vítimas sim dos pais, pois estes as deixam presas àquela maldita coisa que quando desligada deixa dentro de si a nossa esperança de um mundo melhor. Ficamos tão preocupados com contas, com bobagens, academia, trabalho, sexo, etc. que esquecemos os filhos presos à televisão, pois lá eles não incomodam, ficam atentos aos crimes atrozes, as barbaridades, a pornografia etc. Mas eles não nos incomodam. Nada mais egoísta e doentio que isto.

Estamos vendo o nascimento de uma nova tragédia, presenciamos o crescimento de uma sociedade medrosa, observamos a manifestação de grupos de indivíduos doentes, isto pelo simples fato que estarmos ocupados as coisas mais importantes, estamos preocupado em aumentar o pênis em 15 centímetros, ter orgasmos múltiplos e comprar a nova câmera da tecnomania.

Somos tão manejáveis que eu realmente afirmo que só existe protesto hoje em relação ao caso Isabella, porque ela, a TV, nos incita a tais manifestações e quando ela pára de veicular o caso, ou as informações ( quando tudo deixa de dar lucro e audiência) nós ficamos bonitinhos, quietinhos, sentados no sofá para assistir à final do campeonato paulista.

Espero sinceramente que acordemos do transe místico televisivo e que comecemos a nos preocupar com coisas mais importantes, com nossos filhos, com os filhos dos outros, em uma campanha real para a conscientização do que é realmente válido a fim de que não tenhamos o próximo crime bárbaro… enfim…

Obs. Este post foi escrito pelo fato de ter assistido ontem a uma reportagem sobre o efeito do caso isabella nos pequenos que assistem às noticias da tragédia familiar.

Namaskar.

Amigos à distância

14 14UTC Abril 14UTC 2008

Os encontros casuais são realmente os melhores, mas quando alguém, que é seu amigo, mora em uma cidade distante (há mais de 3000 km) você desconsidera tais eventualidades e espera pela oportunidade de ver os amigos ao menos uma vez antes de se condensar em alguém isolado do mundo e dos estádios de futebol.

Há pouco tempo recebi a visita de dois ilustres amigos que hoje residem em Sampa. Os nomes eu prefiro omitir pelos direitos de imagem e também por eles serem pessoas recatadas, de hábitos simples e não muito condizentes com a popularidade (embora sempre fossem populares).

Infelizmente não cheguei a ver uma dessas pessoas, porém a espero na próxima visita e certamente ainda tomaremos sorvete de açaí na Cairu.

Quanto ao outro amigo nos encontramos várias vezes. Visitamos os bares da cidade, e pude, através dele, reencontrar velhos amigos perdidos no passado distante, e o melhor de tudo foi ver que, apesar da distância, a amizade continua a mesma e talvez mais forte.

Não sinto que perdi o amigo, mas considero que nossa amizade cresceu e se fortalece a visita que eles fazem a cidade.

Os laços são refeitos e os traços de companheirismo são renovados, talvez o considere como um segundo irmão (pois já tenho um tão especial). E pensar que amizade sempre foi e é isso: um sentimento que é e não deixa de ser. Amizade é ter transparência e tato no lidar, saber articular as boas palavras para não constranger a pessoa, porém também não se trata de passar a mão na cabeça dela.

Talvez seja esta diferença entre o bom amigo e o amigo bonzinho.

O curioso é que quase todos meus melhores amigos foram embora da cidade, contudo não os sinto longe, sinto que eles ainda lembram de vez em quando das nossas trapaças, das conversas de botecos e nas horas intermináveis de War, ou nas festas estranhas de gente estranha da cidade.

Recordo de cada etapa com os verdadeiros amigos em cada traço da cidade, e parece que os momentos estão criptografados em minha alma, escritos com força e carinho, com cuidado e vontade nesta cidade tão especial que eu amo tanto e odeio em algumas situações.

Amizade talvez seja isso: coragem e compreensão.

Ao ler minhas histórias de amizade em cada retrato poético que surge em minha mente tenho a certeza de que no mundo ainda existem amigos, ainda existe este laço poderoso capaz de vencer à distância, capaz de construir uma ponte infinita que liga vários corações em torno de algo que sempre viverá pulsando na alma de todos os verdadeiros amigos: a compaixão.

Aos meus amigos à distância digo que os sinto tão mais perto do que os que ficaram aqui e espero, ansiosamente, por uma nova visita seja ela inesperada ou não.

Namaskar.