Caminho lentamente em direção à casa do meu pai. Às vezes o caminho costuma ser curto, mas hoje é dia de natal, então o tempo em minha mente não é muito determinado então ele se estenderá um pouco. É chegado o momento de fazer as reflexões sobre o ano e sobre o que se apetece no mundo e tudo isto em apenas cinco minutos mágicos.
Sabe, todo Natal é especial, pois é comum ver o semblante de todos mudarem e se voltarem a sua essência real humana de Fraternidade Universal. Há dois mil anos um homem ousou inovar através de uma mensagem que pregava simplesmente o amor ao próximo e por causa de uma simples idéia fora condenado à crucificação. Ele acreditava em nós e mesmo com todo martírio que sofrera simplesmente absolveu a todos daquele pecado maior. Mudar o mundo com uma idéia se não é coisa de gênio é simplesmente algo divino.
Todos sabem neste blog que não sou católico e que em determinados casos critico os posicionamentos do catolicismo e seus entraves ideológicos, além de sua hipocrisia e falta de um verdadeiro espírito cristão. Porém, como vou negar um homem que deu a vida pelo que acreditava? A humanidade. Esta grande família hoje sofre pelo esquecimento de sua própria identidade. Afundou-se no consumismo que hoje contamina até a maior festa cristã: o natal. É comum ver lojas abarrotadas de pessoas em busca de presentes de todo tipo de espécie e preço. A festa perdeu grande parte do seu simbolismo mágico e hoje se resume a isto: troca de presentes.
“Os homens sempre se reúnem em torno do sagrado”, recordo de minha tutora ao me falar esta frase maravilhosa. Observamos que no natal as famílias se reúnem para comemorar o aparecimento do Deus Menino entre nós, ou seja, se reúnem para celebrar a Esperança de que estes tempos sejam alumiados pela força do amor e da concórdia. Enfeitam sua árvore de Natal que representa a árvore da vida e seu sentido em espiral representa os grandes ciclos do Universo. As crianças esperam o bom velhinho e algo de mágico ainda existe. Ontem vi a reportagem das crianças que enviam cartas ao papai Noel e fiquei mais uma vez comovido.
Contudo não me eximo do discurso radical de que esquecemos o verdadeiro sentido do Natal que é viver o “Amor” que está entre nós representado pela figura do Cristo. Quantas vezes já não falamos aqui do principio alquímico “Solve Et Coagula”, ou seja, o Amor como Solvente Universal dissolve tudo de inferior para transmutar em algo Belo, Verdadeiro e Justo.
É por causa disto que não posso dormir tranqüilo (e eu não durmo mesmo) com as estatísticas a seguir: 40 mil crianças em todo mundo morrem de fome todos os dias, 230 milhões de latino-americanos vivem abaixo da linha da pobreza, há um crescente aumento da violência e uso de drogas entre jovens que inclusive financiam o tráfico além de pertencerem a classes econômicas mais abastadas e estudarem em rede privada (o que há então com a educação?).
Hoje é mais um dia do programa ”Natal Esperança” de um grupo espírita aqui ao lado de casa. São distribuídas muitas cestas básicas de natal para pessoas de baixa renda e que vivem em condições miseráveis. Eu sempre fico muito feliz com a atitude daquela família cujos esforços são imensos o ano todo para proporcionar felicidade aos outros. Houve um ano em que o casal de idosos que mantêm o programa perdeu a filha querida as vésperas das festas de fim de ano e mesmo assim realizaram a entrega das cestas. Pessoas desconhecidas, de realidades diferentes, nem sequer se conhecem, porém sabem que elas são parte de si mesmas.
Quando vejo a imensidade da festa eu mais uma vez fico comovido. Mas também sinto uma imensa tristeza, pois aqueles irmãos não dependem de si para sobreviver e às vezes esperam o ano todo por uma cesta básica. Os irmãos espíritas oferecem oficinas para as mulheres grávidas e sempre que passo em frente a casa deles eu fico contente em ver o trabalho sendo feito. Essas pessoas sabem da importância de se ajudar um irmão menor, ou seja, aquele que em condições ainda não pode se sustentar sozinho e o apóia e o ajuda a caminhar por suas próprias pernas.
Quando vou ao shopping eu me sinto estranhamente triste. Seres humanos de um lado para o outro em busca do mais caro, o mais agradável aos seus desejos mais infantis. Estes esqueceram seus irmãos que moram em frente ou atrás das lojas, ou nos becos escuros da cidade: os mendigos. Por certo que essas pessoas recebem algo para comer no natal de algumas almas preciosas. Porém, não recebem um abraço ou um afago de que algo pode mudar em suas vidas, não recebem o doce hálito da Esperança.
Eu mesmo esqueço essas pessoas. O mundo nos diz que devemos nos voltar ao nosso centro, que temos problemas demais e que não precisamos uns dos outros. Infelizmente sabemos até mesmo pela ciência atual que isto não é verdade e que há uma série intricada de conexões entre cada um de nós. Meu trabalho apenas começou nas escolas e já começo a pensar em trabalhar em outro lugar como voluntário. Mas ainda preciso de estabilidade para ajudar minha família, amigos, etc. Há sempre por detrás do idealismo o aspecto financeiro. Afinal você não poderá realizar nada sem capital para isso.
Irmãos, nesta época natalina dêem as mãos, resolvam conflitos antigos e procurem do fundo de suas almas realizar o que há de melhor para a humanidade em si, pois assim farão para si mesmos. Em minha cabeça surge de repente uma frase de uma música do Aerosmith que diz “a luz no fim do túnel pode ser você”. Vamos juntos construir um mundo de harmonia e paz e mesmo que não possamos perdoar algumas pessoas (e há algumas que JAMAIS vou perdoar e sei que isto contradiz a lei, mas ainda não posso) vamos tentar realizar o antigo sonho do Menino Deus de uma grande Família unida chamada Humanidade.
Namaskar.