O que você costuma fazer com seu lixo? E o ser humano para você o que é? Lixo? Descartável? Um projeto mal elaborado dos deuses ou sei lá o quê? Qual seu conceito sobre você mesmo?
Hoje, em uma rara oportunidade, assisti a um documentário do senhor Marcos Prado intitulado “Estamira”, uma mulher que é considerada pela comunidade, pela psiquiatria e por outrem como louca. Todos os dias, pela manhã, bem cedo ela se levanta, pega o ônibus que a leva até o lixão onde trabalha.
Estamira tem muito orgulho do que faz e apresenta ao público sua maneira curiosa de ver as coisas, o mundo, o ser humano e a si mesma. Em uma postura que pode facilmente ser confundida com arrogância diz ter dó de Jesus e rejeita a idéia de Deus, sendo que ela é uma mulher sábia. Em meio ao lixo, representação da condição social das pessoas marginalizadas e excluídas pela sociedade preconceituosa e mais doentia e delirante que a da própria personagem, ela explica sobre a visão que tem sobre o homem.
Em um momento de lucidez ela diz: “Estamira está em tudo que é canto”. Seria loucura demais achar que isto se associa a idéia do panteísmo em ver deus e a si mesmo em todas as coisas? Estamira Rejeita a idéia de Deus, fica nervosa quando o assunto é tratado e vocês podem ver sua reação no próprio documentário. Por duas vezes sofreu abuso sexual e quando disse ao estuprador para que por Deus parasse com aquilo ele respondeu: “esqueça Deus”. Não sei se existe possibilidade de relação, o fato é que ela, uma devota sincera, passou a desacreditar em tudo.
Seu filho é um homem devoto e trava várias discussões com sua mãe para afirmar sua convicção religiosa.
A natureza das suas visões se deu depois deste fato e mais alguns. Diante de um “trabalho” em frente a sua casa Estamira ficara extremamente revoltada com aquele fato e jogou fora todo aquele aparato doentio. Algum tempo depois suas alucinações começaram a aparecer. Em um momento do filme ela fala em uma língua que sinceramente nunca vamos conhecer. Uma vida conflituosa. Sim, e muito, jogada na rua por seu marido com seus filhos, marido este que a traíra várias vezes, ela começou a luta intensa pela sobrevivência e encontrou nos lixões seu sustento e acreditem sua felicidade.
Em mais um momento de lucidez plena ela diz: “Quanto mais se tem mais se menospreza”. E não é verdade? Quase como um axioma hermético, esta é a lei de nossas vidas, desperdiçamos pelo fato de termos tudo, não economizamos nada, não cuidamos do que temos e não amamos o que nos ama de fato. Estamos acostumados à vida infame de que ter é tão importante que se mata (muitas vezes por quase nada) para se conseguir o que se quer(anticultura inclusive escrachada pelas telenovelas e suas personagens-vampiros, sedentas de poder, de ódio, de sucesso e nunca de honra, pois isto no mundo de hoje é palhaçada).
Esquecemos a Lei que diz que ao fazermos o mal a qualquer ser, matamos a nós mesmos.
Estamira não se dopa, não toma a medicação básica, continua a viver em seu mundo de ilusões acompanhadas pelas pessoas que trabalham no lixo catando restos, ou descuidos, como diz ela mesmo define. Nunca teve pai, foi largada demonstrando mais um fracasso das últimas das instituições falidas do país: a família.
Estamira… Vive no lixo, tratada como lixo, como algo descartável por você leitor, por mim que jogamos as pessoas doentes e sem perspectivas no mundo cão e sofrível sem cuidados e sem amor e o que é pior sem a arte da “escuta”. Aquela mulher nunca foi ouvida, suas frustrações, seus medos, nada, absolutamente, tudo esquecido e perdido, história de uma vida com ares de tragédia, tragédia minha e sua, pois como diz uma velha lei: “Somos todos Um”.
Da próxima vez que observar uma pessoa enferma da mente, não a julgue, procure não rir, não sabemos sua história, seus medos e a razão de ter chegado àquele estado de obscuridade da alma. Que sejamos menos doentes e que comecemos a cuidar destas pessoas atiradas na lama do menosprezo e da falta de Amor. Namaskar.
Referências: www.estamira.com.br/