Minha mulher hoje cansou se de mirar nos exemplos das mulheres memoráveis de Atenas. Já não fica mais bonita pra mim e nem se despe esperando carícias plenas e obcenas. Mandou que fosse embora e que levasse comigo meu disco do Pixinguinha. Fui, com a sensação de que já ia tarde, nunca a tratei como uma mulher desprezível. Eu a amava, sim! Porém, os dias em que chegava tarde e cansado das incontáveis obras para supervisionar foram determinantes para o comportamento futuro dela, que não ouso comentar devido meu orgulho que parece mais vaidade que outra coisa. Maldito dono da venda da esquina!
A esperança de que um dia tudo se ajeitaria foi perdida e a aliança derreti com o ódio, não chorei! Mas fiquei completamente dilacerado. Bati a porta com a certeza plena de que nunca mais iria ver meu livro do Neruda que a pequena nunca leu. O desprezo foi tanto que realmente senti os anos desperdiçados ao lado daquela pessoa. Saí de lá para um bar na periferia da cidade. A noite era tão bela, as pessoas descendo das favelas alegres, para comer churrasquinho nas ruas e beber cachaça até cair e dormir um sono bom em uma vala na companhia dos ratos e da infelicidade da oportunidade que nunca chega.
E olha que a festa não acabava e parece que ia até o dia raiar. O bar ficava de frente a praça mais famosa do bairro, ali um poeta sussurava em versos e trovas suas poesias desatinadas em busca de algum amor que as ouvisse. Delirante, ia de um lado para o outro, infeliz em um plano desvalido de tentar ser amado a qualquer custo. De um lado da rua estava Januária, sempre debruçada na janela, dizem que o mar faz até maré cheia para chegar mais perto dela. Mulher de graça singela, e rosto simetricamente imperfeito, graciosidade e sorriso gostoso. Percebo que ela espera um grande amor, um amor que nunca chega e talvez nunca chegue. Eu queria ser o querubim ruim de Januária.
Uma mãe chega a praça com o rosto coberto pelas cicatrizes que foram feitas pelas lágrimas. Seu nome era Angélica, tinha perdido seu filho, morto naquela mesma praça em um acerto de contas. Ela falava emocionada que queria apenas embalar seu filho mais uma vez e experimentar aquele amor de mãe que agora era só um vazio estranho. Lembro daquele Guri, garoto esperto que saia cedo pra trabalhar nos sinais com malabarismo. Nunca soube que ele tinha envolvimento com tráfico, fiquei surpreso quando soube que um Opala preto peliculado parou na praça e dele saíram três sujeitos que fuzilaram o garoto e seus amigos. Sinto dor quando a vejo, nunca tive filhos, e nem imagino tal dor.
Vou pra casa escutarPixinguinha. Hoje o dia vai ser longo, tem construção pra supervisionar, talvez seja a última.
Obs: Tentei fazer um texto diferente, misturando diversas músicas de chico inclusive parafraseando algumas partes. Não saiu bom, mas foi uma tentativa de inovar.
Musicas de referência: Mulheres de Atenas, Trocando em Miúdos, Angélica, Meu Guri, Construção, Januária.