Mais uma noite insone, estou cansado, mas ainda disposto a escrever alguma coisa para ser lido, não que tenha a pretensão de ter leitores, não tem nada a ver com isto, mas ninguém escreve para o vazio, oras. Todas as pessoas escrevem porque querem ser lidas. Se bem que nem todos escrevem grandes histórias, é verdade, mas se não podemos ser grandes, que sejamos ao menos significativos, isso basta, eu acho. Pois então que sejamos um pouco menos retóricos e mais significativos. Vamos ao que interessa, reflitamos um pouco sobre o encanto das palavras.
Já disse aqui uma vez que escrevo porque gosto e que não espero qualquer tipo de reconhecimento, apenas escrevo, deixo-me contaminar pelos pensamentos que, como rios, se encontram formando uma imensa corrente venosa de ideias na qual os sentimentos discorrem para um lago calmo e tranquilo. Gosto desses rios, rios de palavras-ideias. Gosto de me sentir mergulhados nelas, empapado de significados ocultos e latentes que cada uma traz consigo, gosto desse sentimento, o de imergir no discurso.
Palavras são rios, o texto é o oceano, diria o poeta. O certo é que as palavras não foram criadas para viver em separado, elas somente funcionam quando estão inseridas em uma determinada situação comunicativa. As palavras se realizam em conjunto, detestam viver isoladas, não nasceram para o isolamento. É certo que algumas palavras vivem sozinhas, mas essas são palavras filósofas, palavras que por si só dizem tudo, são intransitivas, mas que de vez em quando descem do mundo das ideias e vem ter conosco uma conversa. O amor é uma dessas palavras, que sozinha muda o mundo, que faz as pessoas escreverem discursos, que fazem chorar o amante em sua desventura. Amor é uma palavra de poder.
Não podemos esquecer que essas são palavras privilegiadas, realizam-se por si mesmas, não precisam de outras. Mas há sempre as palavras menores, chamadas de palavras-função, que apenas interligam termos estabelecendo um sentido entre eles. Há várias assim, mas não vamos descrevê-las, elas são tímidas, sentem-se menos importantes que as outras, mas não é verdade. Afinal, toda palavra, por menor que seja, pode mudar o curso da história. Bem, agora deixo com vocês o poema de Cabral, o Melo Neto, que resume tudo que falamos aqui, mas de um modo todo especial e por que não dizê-lo, essencial.
Rios Sem Discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de águas, em água paralítica.
Em situação de poço, a agua equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhum comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria
*
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega mansamente a se restar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquencia de uma cheia
lhe impondo interinaoutra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.”